O Dia do Amigo

Por Alexandre Inagakiquarta-feira, 20 de julho de 2016

Há coisas nesta vida que a gente só descobre por intermédio da internet. Graças a ela, aprendi por exemplo que em 20 de julho é celebrado o Dia do Amigo. Soube dessa curiosidade através de um camarada que jamais vi, li ou ouvi na vida, mas que por possuir meu e-mail em sua lista, ao lado de mais uns 70 incautos destinatários que receberam a mesmíssima mensagem padronizada, enviou-nos um desedificante anexo de Power Point contendo fotos bucólicas de crianças brincando com um pôr-do-sol ao fundo, ilustradas por versos da indefectível canção do Milton Nascimento que diz que “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”.

No Dia do Amigo, lembrei da amizade entre Charlie Brown e SnoopyUma rápida pesquisa esclareceu que o Dia do Amigo surgiu graças à iniciativa de Enrique Ernesto Febbraro, um professor argentino que viu o homem chegando à Lua no dia 20 de julho de 1969, por intermédio da missão tripulada Apollo XI, constatando que, naquele singelo momento histórico, toda a humanidade quedou-se em frente às televisões que exibiram aquele instante ao vivo, como se todas as fronteiras e diferenças ideológicas tivessem sido momentaneamente dissipadas.

De boas intenções, todos nós estamos cansados de saber que o inferno faz jus ao slogan que aquela marca de desodorante costumava propagar: “sempre cabe mais um com Rexona”. Mas o fato é que, apesar da aparente ingenuidade de se propagar mais uma efeméride feito essa, que soa a invencionice para incrementar vendas de comércio e lotar nossas caixas postais com cartões virtuais piegas, fiquei pensando no conceito por vezes abstrato da Amizade.

Amigo, para mim, é aquela pessoa que tem a liberdade de pensar em voz alta na sua frente, dispensando floreios e dizendo o que realmente acha de suas atitudes. Porém, levando em consideração as sábias palavras de Leonardo da Vinci: “Repreende o amigo em segredo e elogia-o em público”. ;) É aquela pessoa a quem você empresta dinheiro, mas que faz questão de pagar a dívida antes mesmo que você pense em cobrá-la. Ou, viceversamente falando, é o cara com quem você pode contar nos dias em que é necessário vender o almoço para pagar o jantar.

É o ombro no qual você chora suas pitangas, nem que seja às duas da madrugada (por exemplo, quando você é surpreendido com desculpas infames como “não quero estragar a nossa amizade”), e que não pestaneja em lhe dar aqueles esporros necessários ou os afagos que seu ego combalido por vezes requer.

É bóbvio dizer que um verdadeiro amigo é muito mais do que um e-mail na lista de contatos do Gmail ou figurinha em seu álbum do Facebook, mas por vezes as maiores obviedades precisam ser reiteradas.

Quanto a mim, posso dizer que tenho a sorte de ter amigos de rara estirpe vida afora, daqueles que se reúnem em torno de uma mesa de bar e passam horas conversando, esquecidos dos ponteiros do relógio e das vicissitudes do dia-a-dia, inclusive tendo a sorte e o privilégio de ter me tornado colega de trabalho de vários deles.

Amigos compartilham nossos sonhos, neuras, paixões, decepções, alegrias. Riem das abobrinhas que a gente fala, têm à mão um lenço de papel nas horas que a gente necessita. E, principalmente no meu caso particular, compreendem quando eu demoro semanas para responder a um e-mail ou dar um telefonema; meus amigos necessitam ter paciência oriental.

Amigo é aquela pessoa que você não vê há meses, mas quando encontra faz aquela algazarra juvenil:

– Fala veado, cadê a sua mãe?

– Tá lá na zona, aprendendo tudo com a sua!

Amigos falam palavrões com o mais inesperado dos carinhos. Respondem aos nossos rasgos de pieguice com um abraço. São o nosso amparo ao desconcerto com que este mundo é regido. E acreditam de olhos fechados na nossa versão da história.

Enfim, para resumir a história, desejo que todos os meus amigos encontrem a felicidade que eu sei que eles fazem por merecer. E ponto final!

Amores Urbanos

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 19 de maio de 2016

Nestes tempos de relacionamentos líquidos, nos quais é possível dispensar um pretendente com a agilidade de um swipe à esquerda num Tinder da vida, talvez a amizade seja a maior constante capaz de solidificar as fluidezas que marcam este cotidiano. Mas não me refiro aos “amigos” de Facebook, esta rede social que banaliza um termo tão significativo aplicando-o a qualquer contato superficial que aceitamos ter em nossos perfis por questões de networking ou mera educação. E, sim, aos amigos que seguram a sua barra nos momentos mais difíceis, sem que sejamos obrigados a dar justificativas para os eventuais tropeções e presepadas que inevitavelmente damos por aí.

Quando vi Amores Urbanos, o surpreendente longa-metragem de estreia de Vera Egito, a sensação que me veio ao acabar de assisti-lo foi esta: que história bem contada, com personagens tão tangíveis, e que bacana ver o retrato emocional de uma geração tendo sido feito de maneira tão viva e palpável, a partir da narrativa das desventuras amorosas e familiares de três amigos (interpretados por Maria Laura Nogueira, Renata Gaspar e Thiago Pethit). E o modo como Amores Urbanos traça suas histórias em pouco mais de 1 hora e meia de duração, conseguindo construir seus personagens de modo a fazer com que sejamos cativados por eles e pela sua história de amizade sem julgamentos (ao melhor estilo “elogie seus amigos publicamente e deixe para dar as broncas nas DMs”), é um dos diversos méritos do filme.

Maria Laura Nogueira, Renata Gaspar e Thiago Pethit, o trio de protagonistas de Amores Urbanos.

O medo de amar e o medo de ser livre

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Apoie o Abraço Cultural, curso de idiomas e cultura ministrado por professores refugiados

Por Alexandre Inagakisegunda-feira, 09 de maio de 2016

Um projeto que, em menos de 1 ano de existência, empregou 40 professores refugiados, já teve 480 alunos inscritos e engajou 70 voluntários: o Abraço Cultural é uma iniciativa que promove a troca de experiências, a geração de renda e a valorização pessoal e cultural de refugiados residentes no Brasil. E que, em paralelo, faz com que seus alunos aprendam novos idiomas, conheçam diferentes culturas e, principalmente, pessoas que precisaram deixar seus países de origem e que têm muitas histórias e conhecimentos para compartilhar.

Em São Paulo, o Abraço Cultural capacitou e empregou refugiados como professores e já está em sua 5ª edição, com turmas de árabe, espanhol, francês e inglês com enfoque em cultura africana, árabe e latino-americana. E, no Rio de Janeiro, os cursos já vão para a 2ª turma. Seus professores são originários de países como Síria, Haiti, Cuba, Congo e Nigéria. A metodologia do Abraço Cultural propõe que os alunos vivenciem aspectos culturais trazidos por esses imigrantes, através de conteúdos que entrelaçam o ensino formal da língua com referências culturais do professor refugiado em questão, e que são aprofundados através da realização de saraus multiculturais promovidos mensalmente.

Imagem de um dos saraus promovidos pelo Abraço Cultural, projeto de ensino de idiomas com professores refugiados de outros países. Continue Lendo

Animal de Estimação

Por Arnaldo Brancosegunda-feira, 02 de maio de 2016

“Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais” – essa frase clichê dos niilistas de facebook podia servir de dístico para Animal de Estimação, de Terêncio Porto. Afinal, seu livro é sobre seres humanos sendo demasiadamente humanos e animais de estimação tendo que conviver com essas criaturas frágeis e contraditórias. Continue Lendo

Top 10 Kid Abelha

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 26 de abril de 2016

Foi através de uma nota no Facebook que o Kid Abelha anunciou, oficialmente, o fim de suas atividades como banda. De modo discreto, quase que parafraseando aquele poema de T. S. Eliot que dizia que o mundo expira não com uma explosão, mas com um suspiro. Escrever este post foi a maneira que encontrei de reagir a essa notícia, buscando valorizar o legado de uma banda que, antes de se chamar Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, correu o risco de ser chamada de Tia Harry e Os Três Porquinhos ou de Morangotango (vide este documentário exibido no Multishow). E de agradecer, é claro, a um grupo que compôs boa parte da trilha sonora da minha juventude.

* * *

TOP 10 KID ABELHA:

10. “Pintura Íntima” (Paula Toller e Leoni, 1983) – O primeiro grande hit do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens foi um excelente cartão de visitas da banda: um imediato clássico pop que se tornou onipresente nos playlists das FMs no ano de 1983, com versos juvenis tergiversando sobre amor e sexo emoldurados por um arranjo marcado pelo onipresente saxofone de George Israel.

Muita gente desconhece o nome desta canção, que é facilmente encontrada no YouTube sob a alcunha alternativa de “Fazer Amor de Madrugada”. Seu refrão antológico, diga-se de passagem, nunca agradou muito ao autor da letra. Em declaração feita a Ricardo Alexandre para o livro Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80, Leoni declarou: “Eu pensava num tema como ‘Sexual Healing’, de Marvin Gaye, em que os problemas são resolvidos na cama, dão uma virada no relacionamento do casal“. Sem conseguir encontrar uma rima mais satisfatória para “madrugada”, o refrão acabou terminando mesmo em “amor com jeito de virada”, inspirando inúmeros virunduns como “amor com jeito de pirada” ou “amor com jeito de piada“. Mas pior mesmo foi ver a galera completando os espaços em branco da letra e cantando, em altos brados, versos mais infames ainda:

Fazer amor de madrugada
(Em cima da cama, embaixo da escada)
Amor com jeito de virada
(Primeiro a patroa, depois a empregada)”

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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