Artigos do mês de: junho 2008

Cozinha prática para homens preguiçosos

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 27 de junho de 2008

Em se tratando de gastronomia, sigo a seguinte regra: jamais gasto mais tempo cozinhando do que comendo. Imagino até que seja bacana dominar a arte da culinária, mas o meu lado Ofélia nunca surgiu à tona. Por essas e outras, no intuito de auxiliar aqueles que, feito eu, não têm a menor vergonha na cara de assumir que são especialistas na fina arte de apelar para o delivery na hora em que a fome bate até quase nos nocautear, decidi compartilhar aqui uma velha receita de minha própria lavra, testada e aprovada por quem não entende do assunto.

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Miojo Cru

Ingredientes: 1 pacote de miojo.

Instruções: Abra o pacote de miojo, usando suas habilidades manuais. Se você for meio desajeitado, pode recorrer ao auxílio de uma faca, tesoura ou até mesmo dos seus dentes.

Separe de lado o saquinho com o tempero do miojo, que não será utilizado nesta receita (posteriormente, você pode reaproveitá-lo a fim de temperar o arroz ou a salada). Se bem que há quem aprecie turbinar seu miojo cru com o tempero; essa parte fica a critério do freguês.

A seguir, desfrute desta refinada iguaria quebrando-a em pequenos pedaços e enfiando-os em sua boca. É recomendável mastigar bem cada pedaço antes de engoli-lo, caso contrário sua garganta poderá se ferir durante o processo de deglutição.

Se você quiser pode incrementar seu miojo cru com mel, catchup, azeite ou queijo ralado. Meu amigo Orlando Tosetto, por exemplo, escreveu: “Sugestão: acrescente sal, e fique manducando com uma breja na frente da TV. Substitui o amendoim”. Eu particularmente prefiro apreciar esta fina iguaria em toda a sua crueza. Bon appétit!

Viva o Miojo cru!

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Conhecedores (ou não) da minha incompetência na administração de panelas, frigideiras e afins, o pessoal da LiveAD me chamou para participar do evento Blogs na Cozinha, que ocorrerá durante o BGourmet, evento patrocinado pela Brastemp que reúne as últimas tendências de arquitetura, design e moda, bobviamente relacionando-os à arte da gastronomia. Parece-me que a senhorita Luciana Mastrorosa tentará ensinar incautos feito eu a cozinhar alguma coisa lá no Atrium do Morumbi Shopping, nesta sexta-feira, em um evento que contará com a presença de outras figuras como o Sr. Santa Helena e a Sra. Black, as pin-ups do Melhor Amiga, o pokerman Marcos Donizetti e o lúcido bem-relacionado Gustavo Gitti. Espero que da próxima vez eu consiga publicar neste blog uma receita um pouco mais saborosa (aquela de petit gâteau não vale, os méritos são todos do meu amigo Gustavo Weber e eu só fiquei fazendo as piadinhas infames). :P

O verão do Chibo

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 20 de junho de 2008

Que outro livro é lançado com uma promoção na qual você profere a palavra “pudim” na fila de autógrafos, ganha um desconto de 10% na aquisição de 2 mil exemplares e mais um par de pantufas na forma de brotoejas gratinando picles? O prego, como bem afirmou Manoel de Barros, é uma coisa indiscutível. Da mesma maneira, sequer me passa pela cabeça a possibilidade de que existam pessoas incapazes de vislumbrar sentido nas crises de apendicite e desperdiçar a chance de conhecer pessoalmente Vanessa Barbara e Emilio Fraia, gênios bivitelinos que compartilharam as aulas da Nanami na Cásper Líbero, nasceram no ano da graça de 1982 e acabaram de lançar o livro O verão do Chibo.
O Verão do Chibo, livro de Vanessa Barbara e Emilio Fraia.Emilio e Vanessa, autores profícuos com diversas obras publicadas pela Editora Google, tiveram passagens conturbadas pelas redações da revistas como Trip e Piauí antes de sucumbirem à tentação de buscar escrever o Grande Romance de Formação Ambientado em um Campo de Milho. Isto posto, cabe a mim compartilhar a informação de que esta dupla do barulho, após aprontar altas confusões na Sessão da Tarde gravando covers das guarânias dodecafônicas de Honorio Bustos Domecq, receberá amiguinhos & inimiguinhos para a sessão de autógrafos de O verão do Chibo na quinta, dia 26 de junho, a partir das 19 horas, na Livraria da Vila. Vanessa e Emílio informam ainda que receberão amigos, familiares, penetras e hortifrutigranjeiros para um convescote na Flip 2008, dia 3 de julho, na companhia de Michel Laub e Adriana Lunardi.
Com absoluta exclusividade mundial e após sucessivas e progressivas chantagens emocionais, disponibilizarei, após os indefectíveis cinco asteriscos que dividem os posts deste blog, um trecho de O verão do Chibo, como uma espécie de acepipe caramelizado e coberto com flocos chocantes do livro escrito por Vanessa Barbara e Emilio Fraia.

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“Lembro da primeira vez que vi a plantação. O Chibo me trouxe pela mão, me colocou sentado numa pedra. Pediu para eu não sumir de vista, nem sujar a bermuda, e foi com o Bruno para a beira do laguinho apostar corrida de besouro. O sol, alto e mole, castigava o Cabelo que tinha o nariz coberto de pomada. Ele era o juiz e me olhava desconfiado entre um grito e outro da torcida. Tão logo os cascudos cruzaram a linha de chegada (vitória do Chibo sob vaias do Bruno), o Cabelo veio e perguntou se eu sabia o que era uma bolha de sabão. Fiz que não e ele achou graça. Depois me ensinou sua careta favorita, a boca um pouco mais torta, o olho virado, assim, e em pouco tempo eu e o Cabelo tínhamos nosso próprio besouro, que era o mais rápido e desbancou todos os outros do milharal.
Vanessa Barbara, hortifrutigranjeira.“Com o Bruno foi diferente. No início ele mal falou comigo, não me queria por perto. Ou então duvidava que eu pudesse entender o que ele dizia (daí ficava quieto). Depois isso melhorou, mas não muito. Tinham coisas que ele só contava ao Chibo ou em voz alta quando saía entre os pés de milho. O Cabelo também era carta fora, mas a verdade é que ele não dava a mínima: estava ocupado demais com o nosso besouro campeão. O Cabelo era dedicado: adestrava o cascudo Bob falando enrolado. Botava o bicho na parte de cima da mão, prendia uma pata pra ele não fugir e começava a pregar a palavra: bloash-bloblo-bloarshbloblof. Aproximava o rosto para ouvir a resposta e retrucava bloarsh como se estivesse ensinando o besouro a separar as sílabas. No verão em que descobrimos o Bob cochilando debaixo de uma folha, o Cabelo passava as tardes em longos colóquios besourais, levava o mascote para conhecer o Bruno, botava o bicho perto das coisas a fim de ensinar o que eram. Um dia, enfim, parou de segurá-lo pela pata e fez dele o coleóptero mais rápido do milharal. Bob passeava pelos ombros e costas do Cabelo reclamando da vida, o Bob era nosso, o Bob era de nós dois e conquistou todo o mundo (além das competições de triatlo): lembro do Bruno deixando farelo de pão na modesta residência bobiana que ficava num vão da casa da árvore, lembro do estoque de recheios de bolacha que o Chibo e eu juntávamos pra ele, uma pilha em ziguezague de chocolate e morango. Nunca houve um besouro como o Bob. O Bruno e o Chibo viravam dias catando cascudos e testando um por um nas corridas, mas nenhum era tão bom. Além disso, o Bob brilhava no sol, era muito verde e redondo, parecia uma joaninha do submundo. O Cabelo ensinou o Bob a esfregar as patas quando queria comer, treinou o Bob em sessenta centímetros rasos com e sem obstáculos, levantamento de migalhas, natação na poça de cuspe, salto com vara. O Cabelo tornou o Bob sociável: ele ficava paradinho na mão da gente, tomava sol do lado do Bruno, vinha abanando o rabo quando abríamos o pote.
“Engraçado pensar que o Bob quase não voava. Às vezes ele planava, tranqüilo, mas não gostava muito. Preferia praticar atletismo ou apreciar (antes de dormir) a canção ‘Eu Sou um Bolinho de Arroz’, interpretada pelo Cabelo. O Bob, quando descansava direito, fazia um tempo de seis segundos e oitenta décimos, marca inédita em toda a história da plantação. Os demais concorrentes corriam em círculos, afundavam na terra, saíam voando ou chegavam anos depois, molengos e com cheiro de mofo. Bob atravessava a pista com elegância, batia em falso as asinhas e jogava pra lá e pra cá a carapaça imponente. O Cabelo esperava no fim com uma toalha, eu com cinco tipos diferentes de berros, a gente ficava pulando e gritando enquanto o Bruno e o Chibo olhavam feio para a equipe deles — um amontoado de bichos com a mesma cara de pedra, verão após verão.
Emilio Fraia, o Givago-man.“Depois que o Bob morreu de doença nas coronárias, ou problemas abdominais a esclarecer (simplesmente parou e não se mexeu mais), a gente abandonou as corridas porque perdeu a graça. Ainda tentamos cutucar o Bob com um pauzinho, sussurrar bloarsh-boblof com um tom de impaciência (os braços abertos), mas ele tinha ido dormir. Estava cansado. Assim que o Bruno confirmou o passamento do nosso cascudo, confortando o Cabelo com a mão no ombro, observamos um minuto de silêncio. O Chibo não deixou ninguém ficar triste, e o que se viu em seguida foi o funeral mais suntuoso que houve nos lados de cá da árvore toda vermelha: meu irmão fez um discurso comprido, eu virei o meu short do avesso para parecer limpo e o Cabelo cantou ‘Eu Sou um Bolinho de Arroz’, alto e sem chorar, guardando todo o respeito que só as grandes personalidades inspiram. Hasteamos a bandeira e fizemos uma inscrição ao lado da árvore onde o Bob foi enterrado, dentro de uma caixa de chocolates: ‘Aos grandes homens, a pátria reconhecida’.
“Durante o discurso o Chibo falou muitas coisas bonitas, o destino, a pátria, a dura lei das estrelas (e outras que eu não entendi também), mas foi interrompido por um barulho de gafanhotos que crescia e nos cercava. Hoje, quando meu braço ardeu e eu peguei soluço, aconteceu igual. Os gafanhotos. Não dava pra saber de onde vinha o zumbido, vinha de toda parte e de parte alguma. Pensei numa combinação de inimigos; índios, piratas, lagartixas. Ou não é nada disso também, e corri sem saber direito por quê (talvez o Chibo e o Bruno estejam no escuro, do lado de lá, rindo de mim), ou porque eu estivesse exposto e atingido pelas estrelas. Ou perseguido pelo Cara Morto, que não está sozinho, é parte de uma organização invisível; o Cara Morto que manipula as estrelas”.

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P.S.: Volta e meia recebo e-mails de leitores do Pensar Enlouquece que me enviam dicas culturais através de inagaki2@gmail.com. Por conta disso resolvi criar um espaço, na coluna à direita deste blog, dedicado para a divulgação de shows, CDs, lançamentos de livros, estréias de filmes e peças de teatro, eventos & afins.

Um japaraguaio nos 100 anos de imigração japonesa

Por Alexandre Inagakiquarta-feira, 18 de junho de 2008

Volta e meia digo que sou um cara “japaraguaio”, uma vez que prefiro pizzas e hambúrgueres a sushis e sashimis, só namorei gaijins, do idioma só sei falar bonsai, Honda, sayonara, Yoko Ono e olhe lá, e das minhas raízes nipônicas só devo ter herdado mesmo meus olhos puxados. Lamento, porém, esse afastamento de minhas origens. Me incomodava muito, por exemplo, a dificuldade que eu tinha em conversar com meus avós, comunicação feita aos trancos, barrancos e mímicas, nas quais um tentava adivinhar o que o outro queria dizer, sem muito sucesso. E me ressinto, em especial, de não ter conseguido conversar mais a respeito das histórias que eles teriam para compartilhar acerca dos primeiros anos em que, distantes da terra natal, meus avós se aventuraram por um país muito diferente do Japão que eles deixaram para trás a fim de buscar uma vida melhor.

Os Shimomuras, sobrenome da minha mãe.

Não foi fácil, em especial naqueles tempos em que “globalização” era uma palavra que sequer existia, adaptar-se a uma língua diferente, costumes muito diversos, o clima, hábitos alimentares e as dificuldades financeiras daqueles que, feito os meus avós, vieram para o Brasil buscando novas oportunidades em uma terra ampla, sem os estreitos limites geográficos do arquipélago japonês ainda incapaz de propiciar as chances necessárias para todos os seus habitantes.

Meus avós maternos, os Shimomuras, vieram para o Oeste paulista trabalhar nas fazendas cafeeiras da região. Porém, sofreram uma perda irremediável logo no começo de sua estada neste país tropical. Minha tia-avó, já debilitada após dias exaustivos da viagem de navio para cá e enfraquecida com infecções, não conseguiu se habituar a uma alimentação que nada tinha a ver com os sushis e sashimis de sua terra natal. Nem teve tempo, aliás, de adaptar-se aos costumes alimentares brasileiros, e faleceu poucos meses depois, longe de sua terra natal e sem sequer ter vivido até os 30 anos de idade. Sueno e Shigueo, os pais da minha mãe, superaram muitos outros obstáculos árduos e doloridos. Mas, assim como os 781 japoneses pioneiros que estiveram a bordo do navio Kasato Maru, que em 18 de junho de 1908 chegou no porto de Santos trazendo os primeiros imigrantes que vieram ao Brasil, conseguiram, com muito trabalho e persistência, reconstruir suas vidas e deixar suas marcas por aqui.

Os Inagakis, sobrenome do meu pai.

Fumio e Satsumi, meus avós paternos, tampouco tiveram vida fácil quando chegaram aqui. Em especial o meu avô, que era jornalista e haicaísta e teve que deixar de lado suas atividades de escriba para vender carvão nas ruas da cidade de São Paulo. Quando lembro de meu pai contando a respeito de sua infância pobre, porém repleta de lembranças divertidas ao lado de seus seis irmãos, chego a ficar com os olhos marejados. Meu “ditian” Fumio foi quem me ensinou a ler e a escrever, aos 4 anos de idade, antes que eu começasse a freqüentar escolas. E ainda tenho nítidas na memória as recordações dos sábados que eu passava na casa de meus avós paternos, na rua Aimberé, no bairro paulistano de Perdizes. Eu, que desde pequeno me habituei a ficar lendo, volta e meia deixava de lado as brincadeiras com meus primos para me esconder em um canto atrás do sofá da sala, onde ficava folheando jornais e os volumes da enciclopédia Conhecer, a Wikipedia da minha infância. Não conseguia ver meus avós maternos com a mesma freqüência porque eles moravam em Inúbia Paulista, cidade localizada a 578 km de São Paulo. Mas também tenho boas recordações deles, assim como dos meus tios Michiko e Tsutomu (relatei uma história desses tempos em minha crônica “Pombos Urbanos”).

Passei muitas manhãs assistindo a programas como Japan Pop Show, uma espécie de karaokê televisionado, apresentado pelo simpático casal Nelson e Suzana Matsuda, e o inesquecível Imagens do Japão, revista eletrônica de variedades capitaneado por Rosa Miyake, talvez a principal embaixadora cultural do Japão no Brasil. Do programa de TV que ela apresentou por mais de 30 anos, lembro em especial do seu microfone que batia palmas. Mas Rosa também foi cantora de sucesso; na época da Jovem Guarda cantou com astros como Roberto Carlos, e ainda foi a intérprete do belo jingle da Varig em homenagem aos imigrantes japoneses, composto por Archimedes Messina em 1968, sobre um pescador chamado Urashima Taro.

Apesar de não ser um nikkei tão ligado às raízes nipônicas quanto eu gostaria de ser, sei que devo muito do que sou graças à cultura japonesa. E, é claro, a todos os ensinamentos dados por meus pais, avós e tios. Shigueo Shimomura, Sueno Shimomura e Fumio Inagaki já faleceram, mas ainda há um pouco deles vivendo em mim e em todos aqueles que os amaram. Já a minha avó paterna, minha querida “batian” Satsumi Inagaki, será uma das imigrantes que dançarão na solenidade com o príncipe herdeiro Naruhito, no Sambódromo do Anhembi.

Somos o que somos graças às nossas memórias. Eu tenho a sorte e o orgulho de pertencer a uma família maravilhosa, e de ser o fruto de um encontro entre as culturas oriental e ocidental. E, por mais desligado que eu seja das tradições nipônicas, não poderia deixar de render um pequeno tributo, neste centenário da imigração japonesa, à terra natal dos meus antepassados e de tantos nomes que admiro profundamente, como Kenji Mizoguchi, Matsuo Bashô, Hayao Miyazaki, Osamu Tezuka, Akira Kurosawa, Haruki Murakami e Yasujiro Ozu.

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P.S. 1: A Abril.com produziu um belo site sobre os 100 anos de histórias da imigração japonesa no Brasil. Destaco em especial o Armazém 14, ótimo blog escrito por Alexandre Sakai, e os relatos de nikkeis falando sobre suas famílias.

P.S. 2: As músicas de Rosa Miyake, incluindo sua gravação do jingle da Varig, estão disponíveis para download no site Imagens do Japão.

Dia internacional dos comentaristas de blog?

Por Alexandre Inagakidomingo, 15 de junho de 2008

Quando soube que um grupo de argentinos criou o Dia Internacional do Comentarista (DIC), a ser celebrado no dia 15 de junho, corri atrás dessa história a fim de saber por que cargas d’água escolheram essa data. Encontrei no site do jornal El Clarín uma explicação um tanto quanto singela.
Reza a lenda que Orlando Ferrero, 22 anos, e Julián Sequeira, 45, eram dois comentaristas do blog “La Culpa Del Tomate” (escrito por Alicia Páez, que assinava seus posts com o nickname Walquiria) que começaram a se desentender depois de inúmeras discussões no espaço de comentários do blog de Alicia. Julián, que seria evangélico, ficou especialmente irritado com uma observação depreciativa acerca de sua religião feita por Orlando. Após encontrar no Google dados pessoais sobre a vida de seu desafeto, Julián resolveu partir para as vias de fato. No dia 15 de junho de 2004, o descontrolado comentarista invadiu a casa de Orlando, que morava na cidade de Resistencia, e o assassinou com um golpe dado por um cano de ferro. Depois disso, dirigiu-se até uma igreja e confessou seu crime em voz alta. Chocados com o acontecimento, os comentaristas do La Culpa Del Tomate divulgaram a notícia na blogosfera argentina e decidiram declarar o dia 15 de junho “Dia Internacional Del Comentarista”, com o intuito de recordar o pitoresco episódio e homenagear o colega assassinado.
Logotipo do Dia Internacional dos Comentaristas de Blogs.Apesar dessa história ter repercutido em lugares como o El Clarín e um blog da Folha de S. Paulo, ela não tem aquela típica cara de lenda urbana? Pois é. A bitácora La Gran Mentira desvenda todo o chiste, assumidamente uma brincadeira criada com o intuito de dar mais visibilidade para a data. Mas o fato é que, invencionices à parte, os comentaristas fazem por merecer o seu dia. Muito antes de escribas sonharem em ganhar dinheiro com seus blogs, o grande motivo para que blogueiros compartilhassem suas palavras, descobertas, sonhos, frustrações e viagens maionésicas na internet sempre foi o prazer de poder trocar idéias com outras pessoas dispostas a acrescentar pontos de vista, corrigir informações, dividir experiências, fazer, enfim, novas amizades. Pois, como afirma precisamente o blog oficial do DIC, “um comentário diz mais a respeito de uma pessoa do que um mero link em um blogroll”.
Aproveito a ocasião, pois, para agradecer a todos aqueles que contribuem com o conteúdo deste blog com seus comentários. ;)

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P.S.: Este agradecimento, logicamente, não se aplica aos que aparecem aqui unicamente para escrever: “seu blog eh mto loko, topa trocar links e fzr 1 parceria?”.

O amor é cego e brega

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 12 de junho de 2008

Neste Dia dos Namorados, dedico a todas as leitoras e leitores deste blog seis pérolas do cancioneiro amoroso brasileiro. Afinal de contas, como já afirmei em meu surrado texto Teu Amor é Como um Alien Dentro de Mim, “sei que devo estar sendo até piegas, mas todos que amam são meio bregas”. E o amor, afinal de contas, é cego e hemburresce, mas ainda não é surdo. :P

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Roupa Nova – “Linda Demais”. 1985 foi o ano do Roupa Nova, que ganhou disco duplo de platina com um álbum repleto de músicas que Edson “Bolinha” Cury qualificaria como “sucessos que o pooooooovo gosta”, dentre os quais destacam-se “Dona” (tema da Viúva Porcina na novela Roque Santeiro), “Seguindo no Trem Azul”, “Show de Rock’n Roll” e a apoteótica “Linda Demais”, balada catártica que, não à toa, é hit de qualquer karaokê que se preze. Pudera: quem nunca teve a necessidade de soltar o sentimento encalacrado no peito por meio de versos motelicamente românticos como “te desejo muito além do prazer”, “vem fazer diferente o que mais ninguém faz” ou “mil beijos de amor em muitos lençóis”? Amar não é pra amadores, mermón! E tá pensando que é fraco um grupo cujo blog oficial só tem um único post, mas que recebeu nada menos que 962 comentários?

Só Pra Contrariar – “Depois do Prazer”. Uma obra-prima da cara-de-pau. Abra o teu coração e confesse pra mim, mulher: qual seria a tua reação se eu chegasse na porta da tua casa e admitisse, com os olhos umedecidos de arrependimento e o peito aberto, que “tô fazendo amor com outra pessoa, mas meu coração vai ser pra sempre teu”? Será que realmente “o que o corpo faz a alma perdoa”? Sei não. Para mim, esta canção gravada pelo grupo Só Pra Contrariar em 1997 é um crássico da desfaçatez daqueles que se bronzeiam diariamente com óleo de peroba. Mas admito que seus versos romanticozinhos dizem ao menos uma verdade incontestável, principalmente para os homens que pensam com a cabeça de baixo e só recuperam o equilíbrio racional depois de terem alcançado o ápice orgasmático: “Dá pra ver nessa hora/ Que o amor só se mede/ Depois do prazer”.

Markinhos Moura – “Meu Mel”. Nascido no Ceará, este cantor e compositor mudou-se para São Paulo em meados dos anos 80. Sonhava em ser bailarino, mas acabou se encontrando na carreira musical. Em 1986, invadiu as AMs e FMs, merecendo da locutora do Vídeo Show a seguinte descrição: “Markinhos não era nenhum abelhudo, mas vivia lambuzando de mel as paradas musicais”. Bem, o que mais dizer de uma música que leva ao pé da letra o fato de ser tão melada a ponto de não ser recomendada a corações diabéticos? Markinhos Moura, após ter superado rompantes de síndrome do pânico nos anos 90, segue adiante com sua carreira bem-sucedida, disponibilizando em seu site oficial fotos, vídeos e suas gravações mais recentes.

Agepê – “Deixa Eu Te Amar”. “Quero te pegar no colo/ Te deitar no solo/ E te fazer mulher”: trata-se, indubitavelmente, de um refrão digno de qualquer antologia. Graças a esta música, o sambista carioca Antônio Gilson Porfírio, que juntou suas iniciais para criar seu nome artístico, vendeu expressionante 1 milhão e meio de cópias do álbum Mistura Brasileira, de 1984. É uma pena que Agepê, ícone do samba romântico, morreu cedo, em agosto de 1995, aos 53 anos de idade. Sua música, porém, permanece embalando noites tórridas de paixão pelo Brasil afora.

Wando – “Moça”. Convenhamos: não é qualquer um que promete se virar do avesso só para dar um abraço. E, embora o mineiro Wanderley Alves dos Alves seja mais conhecido por sucessos como “Fogo e Paixão” e “Chora Coração”, sua obra-prima, que foi trilha sonora da novela Pecado Capital em 1975, é definitivamente esta canção na qual este singelo colecionador de calcinhas canta, com toda a sensibilidade que só um macho possui: “Moça/ Sei que já não és pura/ Teu passado é tão forte/ Pode até machucar”. Já que o que importa é o presente, e o futuro é um papel em branco a ser escrito a quatro mãos, o que nosso bardo ui-Wando de paixão poderia dizer? “Eu quero me enrolar nos teus cabelos/ Abraçar teu corpo inteiro/ Morrer de amor/ De amor me perder”.

Zezé di Camargo & Luciano – “Você Vai Ver”. Mirosmar José e Welson David de Camargo anualmente gravam novos discos repletos de músicas que cravam diretamente o peito daqueles que amam e, embevecidos de paixão, mal conseguem balbuciar palavras capazes de descrever seus sentimentos. Um bom exemplo? Esta canção, gravada em 1994, que representa uma espécie de “Detalhes” na obra de Zezé di Camargo, com versos nos quais a dupla sertaneja entoa a ilusão de que aquele amor, por mais parceiros que vá encontrar ao longo de sua vida, jamais se esquecerá de você, seu gostosão convencido (“Você pode provar milhões de beijos/ Mas sei que você vai lembrar de mim/ Pois sempre que um outro te tocar/ Na hora você pode se entregar/ Mas não vai me esquecer nem mesmo assim”).

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Feliz Dia dos Namorados! E para os solteiros, feliz Dia das Possibilidades! :roll:

Era Uma Vez, o filme de Breno Silveira

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 10 de junho de 2008

A fase atual do cinema brasileiro é muito boa em diversos aspectos. Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, repetindo o feito de Central do Brasil em 1998. Tivemos dois representantes da nossa cinematografia integrando a seleção oficial do Festival de Cannes (algo que não acontecia desde 1964, ano de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos), sendo que Sandra Corveloni ganhou o prêmio de melhor atriz por Linha de Passe. Meu Nome Não é Johnny, primeiro filme brasileiro a entrar em cartaz em 2008, ultrapassou a marca de 2 milhões de espectadores nos cinemas. De quebra, pesquisa do Datafolha mostra que dobrou a aprovação do público ao cinema brasileiro em comparação com levantamento semelhante realizado em 1995.

Clique aqui para visitar o site oficial do filme Era Uma Vez.

É em meio a este cenário que estreará, no dia 25 de julho, Era Uma Vez. Trata-se do segundo longa-metragem de Breno Silveira, diretor da quinta maior bilheteria do cinema nacional de todos os tempos: 2 Filhos de Francisco, visto por mais de 5 milhões de espectadores em 2005. A expectativa em torno do novo trabalho de Breno é grande e não poderia ser diferente, já que seu filme de estréia foi o mais bem-sucedido do cinema nacional nos últimos 20 anos. Em sua nova investida, Breno resolveu apostar novamente na emoção, ao narrar uma história de amor entre um jovem morador do Morro do Cantagalo que trabalha vendendo cachorros-quentes em um quiosque na praia de Ipanema e uma menina que mora na Vieira Souto, na região mais privilegiada do Rio de Janeiro.

Assisti a Era Uma Vez em uma cabine de pré-estréia, e posso dizer que uma marca que Breno Silveira deixou em seu primeiro filme, e que permanece presente neste segundo trabalho, é a sua capacidade de desenvolver uma trama com a perícia daqueles exímios contadores de histórias que hipnotizavam pessoas ao redor de fogueiras noite afora. Também fiquei satisfeito em constatar que diversas seqüências de Era Uma Vez possuem o mesmo poder de cativar espectadores mostrado em 2 Filhos de Francisco.

Era Uma Vez, um filme que também fará sucesso em DVD.

Este é um filme que não tem pudor em buscar emocionar sua platéia. E, assim como na cinebiografia de Zezé di Camargo & Luciano, na qual seqüências como a dos irmãos cantando em uma rodoviária a fim de arrecadar trocados para a família que passava fome ou a descoberta do destino final de Camarguinho fizeram com que platéias derramassem lágrimas catárticas de emoção, a história de amor entre um rapaz pobre da favela (interpretado por Thiago Martins, ator revelado pelo grupo Nós do Morro, que já atuou em novelas globais como Belíssima) e uma menina rica da Zona Sul (personificada por Vitória Frate, ex-blogueira, selecionada após testes com dezenas de outras atrizes) envolve o espectador de tal modo que me flagrei na poltrona da sala de projeção, por diversas vezes, torcendo por um destino mais generoso para o casal.

Há muitos fatores que fazem com que um filme atraia multidões aos cinemas, e seria injusto cobrar de Era Uma Vez bilheterias semelhantes a 2 Filhos de Francisco. Porém, posso dizer que a história desse amor que desafia desigualdades sociais possui qualidades suficientes para ajudar na consolidação de um projeto de cinema popular brasileiro, mostrando na tela todas as delícias, agruras e contradições de nossa sociedade ao mesmo tempo que atrai a atenção do espectador com uma história bem narrada.

Clique aqui para visitar o site oficial do filme Era Uma Vez.

P.S.: Dé e Nina, os personagens interpretados por Thiago Martins e Vitória Frate, citam durante o filme uma obra fundamental para a melhor compreensão da crise institucional provocada pelas desigualdades sociais da cidade do Rio de Janeiro: Cidade Partida, de Zuenir Ventura, livro-reportagem no qual o autor retrata uma geração socialmente excluída. Aqueles que leram a obra de Zuenir certamente compreenderão melhor o final de Era Uma Vez.

Quem é vivo sempre desaparece

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 06 de junho de 2008

Sim, eu também detesto posts que começam com explicações nada convincentes de blogueiros que somem sem dar qualquer satisfação. :P

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Nos anos 80, o poeta Paulo Leminski escreveu: “o novo/ não me choca mais/ nada de novo/ sob o sol/ apenas o mesmo/ ovo de sempre/ choca o mesmo novo”. Hoje o cartunista Adão Iturrusgarai publicou uma tira que dialoga com esses mesmos versos.
Retrato do artista quando jovem segundo Adão Iturrusgarai.
Vergílio Ferreira, autor de Aparição, um dos romances mais impressionantes que li na juventude, afirmou: “A grande originalidade não é dizer coisas novas, mas ser novo diante das coisas velhas”.

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É muito mais fácil blogar em até 140 caracteres. Não é de se admirar, pois, que durante todo o hiato temporal no qual deixei este blog abandonado, recorri a serviços de microblogs como o Twitter enquanto a preguiça me impedia de redigir novos posts aqui. É uma pena, porém, que o Twitter esteja passando por sérios problemas, com constantes quedas de serviço dignas das indigestões causadas pelos donuts do Orkut.
Enquanto vários usuários do Twitter ensaiam um movimento de migração para concorrentes como o Plurk, o Pownce e o Jaiku, recomendo (especialmente por causa das piadas) um outro site com nome proctológico: o Adocu, que leva o conceito de microblogging às últimas conseqüências, permitindo que sejam publicados posts de apenas uma palavra.
Adocu, o site de microblogging para alemães.
Qual será a próxima tendência? Microblogs compostos exclusivamente por siglas ou emoticons? XX(

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Abstrairei quaisquer críticas que forem feitas a Ensaio Sobre a Cegueira, o filme de Fernando Meirelles que foi mal recebido no Festival de Cannes. Ainda pretendo assisti-lo na primeira oportunidade que puder, devido à curiosidade que foi fomentada desde os (ótimos) posts que Meirelles publicou em seu Diário de Blindness, relatando com desconcertante sinceridade os bastidores do processo de criação de seu novo filme. Além disso, como não respeitar um cara que tece reflexões como as copyandpasteadas a seguir, extraídas da entrevista que ele concedeu a Silvana Arantes da Folha de S. Paulo?

“Há uma frase do livro que diz: ‘Não acho que ficamos cegos, acho que somos cegos. Cegos que podem ver, mas não vêem’. Diariamente os limites do que chamamos de ‘civilização’ são rompidos, mas parece que não enxergamos isso. A barbárie está instalada e não vemos. Talvez por estar fazendo este filme, cada vez mais vejo gente meio cega ao meu redor; desde o padre Adelir, que se lançou no ar preso a mil balões por não conseguir enxergar as reais condições que tinha ao redor, até as multidões de pessoas com fortes convicções ideológicas que se orgulham de nunca mudarem sua visão do mundo”.

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Em 1984 o sambista Agepê emplacou o grande sucesso de sua carreira, “Deixa Eu Te Amar”, dos antológicos versos “Vou te amar com sede/ Na relva, na rede, onde você quiser/ Quero te pegar no colo/ Te deitar no solo e te fazer mulher”. Renato Gaúcho, atual técnico do Fluminense, certamente deve identificar-se com essa música, a julgar pelas declarações que ele deu para o programa Documento Especial em 1992, sobre suas desventuras sexuais. Renato, que nunca teve firulas para falar de sua vida pessoal, afirma: “No carro, na rua, na lixeira, no elevador, na escada; onde a pessoa menos espera, tô lá fazendo sexo. O que menos faço é sexo na cama”. Figuraça!

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Todo dia recebo pelo menos um e-mail de algum incauto propondo “parceria”, palavra que dentro da blogosfera ganhou uma nova conotação: escambo de links. A estes, costumo indicar dois posts que resumem tudo o que penso sobre o assunto: Parcerias de Verdade, de Edney Souza, e Link Não é Esmola, de Carlos Cardoso. Porém, descobri uma série impagável de selos criados por Valença, do blog Saco de Filó, que merecem citação obrigatória de hoje em diante.
Selo criado por Valença, do blog Saco de Filó.Selo criado por Valença, do blog Saco de Filó.
Eis o que Valença escreveu, por exemplo, a respeito do “Eu Topo Com Qualquer Um”: “Selos para blogs que saem pela blogosfera pelo amor de Deus por uma parceria, uma troca de links… qualquer coisa serve, que Deus lhe dê em dobro. Normalmente, o cara tem um blog de esporte ou piadas e sai pedindo parcerias para blogs jurídicos, de medicina, blogs GLS, blogs de política… afinidade é o que menos conta… se é que conta”.

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Após sair da sessão de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, a comparação que me veio à cabeça foi do filme com os revivals de bandas dos anos 80 que têm reaparecido com cada vez mais freqüência. Ok, é muito bacana resgatar bons momentos da adolescência, mas será que só isso é o bastante? Sim, o novo filme concebido pela dupla Spielberg & Lucas é divertido. Mas o seu final digno de novela das seis, o excesso de efeitos CGI e o fraquíssimo McGuffin (conceito clássico de roteiro cinematográfico cunhado por Hitchcock, citado em uma resenha que escrevi sobre A Vila) da trama, baseado em aparições alienígenas, fizeram com que eu saísse do cinema com a sensação de que o novo filme de Indy é como um desses álbuns que os Rolling Stones gravaram recentemente: agradável, mas nada além de uma sombra diante de tudo que já foi produzido no passado.

Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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