Fahrenheit 451, o indefectível questionário

Por Alexandre Inagakisegunda-feira, 09 de maio de 2005

Meg Guimarães, Maira Parula, Rafael Galvão e Marcos VP me convocaram para a roda. E eu, que relutei para responder a este questionário que se espalhou feito meme pela blogosfera lusófona, finalmente sucumbo e posto minhas respostas:

1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Antes de mais nada, vale a pena recordar que Fahrenheit 451 é um dos melhores livros do meu escritor predileto de ficção científica, Ray Bradbury. O romance (adaptado para o cinema por François Truffaut) narra a história de um futuro no qual livros são considerados nocivos à sociedade, uma vez que propagam idéias que deixam as pessoas tristes, ansiosas e raivosas. Além disso, instigam pensamentos e reflexões, tornando-se “fontes de infelicidade”. Por essas razões, ficou decretado que todos os livros deveriam ser sumariamente queimados. No entanto, alguns malucos desta distopia de Bradbury rebelam-se contra as ordens governamentais, e dedicam-se a decorar, parágrafo por parágrafo, algum de seus livros prediletos, a fim de protegê-lo do esquecimento.

O livro que eu gostaria de ser é “O Jogo da Amarelinha” de Julio Cortázar, por uma razão simples: é o melhor de todos os tempos.

2- Já alguma vez ficaste apanhadinho por uma personagem de ficção?
Segundo explicação dada pela Meg, “apanhadinho” é ficar “caidinho”, ou seja, abobadamente apaixonado por alguém. Posso dizer, portanto, que já fui apanhado de jeito várias vezes em minha vida de leitor. Algumas de minhas paixões platônicas foram: Tina (da turma da Mônica), Capitu (dos inolvidáveis olhos de ressaca), Helena de Tróia (uma mulher capaz de incitar uma guerra não pode ser desprezada) e Jocasta (ah, meu Complexo de Édipo mal resolvido…). Confissão quase inconfessável: adoraria protagonizar um ménage à trois com Simone e Marcela, as duas perversas da “História do Olho” de Georges Bataille.

3- Qual foi o último livro que compraste?
“Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano”, de Martin Scorsese e Michael Henry Wilson.

4- Qual o último livro que leste?
“Cão Come Cão”, magnífico romance policial escrito por Edward Bunker, que recomendo convictamente a qualquer um que me leia. É um livro que deixa no chinelo “O Assassino Dentro de Mim” de Jim Thompson (que eu já considerava excepcional) como retrato da mente de um criminoso. Pudera: Edward Bunker passou mais de 20 anos de sua vida atrás das grades, e boa parte desse tempo foi gasto com leituras de autores como Faulkner e Dostoiévski. Seus personagens são execráveis (o primeiro capítulo, diga-se de passagem, descreve com precisão de detalhes dois assassinatos dos mais torpes), e no entanto é se de admirar a capacidade que Bunker tem para construir personagens que transcendem a condição de marionetes ficcionais, dando dimensões humanas até para o maior dos psicopatas, graças à sua vivência, domínio de linguagem e, principalmente, talento narrativo. Mas, se minhas palavras forem insuficientes para convencer alguém a comprar “Cão Come Cão”, recomendo a leitura da impecável resenha de Rafael Lima.

5- Que livros estás a ler?
Os volumes 9 e 10 das Obras Completas de Carl Barks, publicadas pela Editora Abril, e “Contra o Consenso”, título apropriado para a coletânea de textos de Reinaldo Azevedo, colaborador das revistas “Bravo” e “Primeira Leitura”. Embora discorde de sua postura ideológica (e tenha passado ao largo de quase todos os seus textos sobre política), não posso deixar de assinar embaixo do que Azevedo escreve a respeito do cenário contemporâneo da poesia brasileira em seu ensaio sobre Mário Faustino, crítico literário e um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, morto precocemente em um acidente de avião aos 32 anos de idade. É um livro que merece ser lido, nem que seja para xingar o autor (como muitas vezes tive vontade) por conta de suas opiniões provocativas a respeito de Cazuza, Carlos Drummond de Andrade, Ariano Suassuna, Denys Arcand, Otavio Frias Filho, etc etc.

6- Que livros (cinco) que levarias para uma ilha deserta?
A melhor resposta a essa pergunta já foi dada por Luciana Naomi Hikawa: “Mil e Uma Receitas com Coco, Mil e Uma Receitas com Peixe, Aprenda a Construir sua Própria Jangada, Sinais de Fumaça e Código Morse em 10 Dias e, é claro, Robinson Crusoé“.

Agora falando sério (ho ho), eis os livros que eu levaria: “O Jogo da Amarelinha”, “Infinite Jest” (David Foster Wallace), “Ulysses” (James Joyce), as “Mil e Uma Noites” e a Poesia Completa de T. S. Eliot.

7 – A quem vais passar este testemunho e por quê?
A ninguém, porque eu gosto de quebrar correntes e estou ansioso para saber se é verídica a história de que se eu não passar este questionário para frente uma horda de elefantes albinos invadirá meu quarto nesta madrugada dançando macarena em cima de meu corpo agonizante.

* * * * *
P.S.: Na estréia oficial do novo template deste blog, quero deixar aqui meus agradecimentos a Bruno Furnari, criador do novo visual desta página, por sua paciência comigo, e Suzi Hong, minha amiga e consultora oficial para assuntos aleatórios.

P.P.S.: A fotomontagem que ilustra este post é de Scott Mutter, artista que enfileiro ao lado de George Perec, M.C. Escher, Murilo Rubião, Man Ray, Federico Garcia Lorca, René Magritte e Campos de Carvalho na lista de transgressores que admiro pela capacidade de reinventar nossa embotada realidade com suas obras.

As mortes de Terri Schiavo

Por Alexandre Inagakidomingo, 27 de março de 2005

Theresa Marie Schiavo, nascida em 3 de dezembro de 1963, está para morrer pela segunda vez a qualquer momento. Sua primeira morte ocorreu em fevereiro de 1990, quando, aos 26 anos, sofreu uma parada cardíaca dentro de sua casa. Levada ao hospital pelo seu marido, Michael, Terri teve interrompido o fluxo de oxigênio ao seu cérebro durante o tratamento recebido (sua família recebeu cerca de US$ 2 milhões de indenização pelo erro médico). Desde então, Terri está em “estado vegetativo persistente”, e ela só se mantém viva graças à inserção de um tubo de alimentação em seu corpo.

Ao longo destes quinze anos, o marido e os pais de Terri se digladiaram em batalhas judiciais. Enquanto Michael ingressou na Justiça solicitando o desligamento do tubo, afirmando desejar que sua esposa tivesse uma morte digna, Bob e Mary Schindler, pais da americana, lutaram anos a fio para que o aparelho permanecesse ligado. Não os culpo: o “estado vegetativo persistente” é um dos males mais cruéis que pode afligir os parentes de uma vítima. Basicamente, quem mergulha neste estado está com o cérebro morto; no entanto, apesar da inexistência de qualquer função cerebral, o paciente parece reagir a estímulos externos, chorando, sorrindo e até mesmo balbuciando sons. Neste site mantido pela família de Schiavo, encontram-se arquivos de áudio e vídeo que parecem comprovar, quase que irrefutavelmente, que Terri mantém ainda algum vínculo com o mundo externo. No entanto, dezoito especialistas que a examinaram foram unânimes em concluir: ela já não possui qualquer sinal de consciência.

Sexta-feira, dia 18, por intermédio de uma ordem judicial, o tubo de alimentação de Terri foi desligado. Desde então o caso Schiavo saiu da esfera familiar para tornar-se uma imensa barafunda política e religiosa. Jeb Bush, governador da Flórida e irmão de George W. Bush, motivado principalmente pela pressão oriunda dos fortes lobbies “pró-vida” mantidos por grupos conservadores (os mesmos que têm se intrometido em outros assuntos como o direito ao aborto ou o ensino do darwinismo nas escolas públicas), interveio na esfera do Judiciário a fim de tentar aprovar uma lei visando o religamento de aparelhos em casos similares, por enquanto sem sucesso.

Em meio a tudo isso, o corpo de Theresa Marie Schiavo definha. A imagem de seus olhos ainda abertos e o desconforto de saber que ela morrerá de fome e de sede chocam a opinião pública, embora os médicos afirmem categoricamente que ela não padecerá de qualquer nível de sofrimento porque seu córtex cerebral está destruído. Ok, mas vá explicar isso aos pais de Terri. Em meio ao desespero vale tudo, inclusive tentar interpretar os sons desarticulados que saem da boca de Schiavo. Uma matéria do New York Times descreve a demagógica tentativa que Barbara Weller, advogada da família Schindler, fez de conversar com a paciente. Weller dirigiu-se diretamente a Terri e perguntou: você gostaria de viver? Segundo relatos dos presentes à cena, Schiavo teria dito “Ahhhhh” e “Waaaaaaa“, e é até natural que seus parentes tenham concluído que ela tentou responder “I want to live“.

Quis o destino, esse irônico filho da puta, que os capítulos finais dessa tragédia coincidissem com a Semana Santa, que relembra justamente o calvário de Cristo, sua morte e ressurreição. E, em meio a infindáveis discussões sobre o direito à eutanásia (assunto sobre o qual recomendo fortemente uma visita a esta excelente página), só posso lamentar o fato de que o destino de Terri Schiavo não possa ser decidido pela própria paciente. Não sei, sinceramente, o que faria se estivesse no lugar do marido ou dos pais desta mulher. Em um mundo ideal todos nós deveríamos explicitar, tal como podemos fazer com relação à doação de órgãos em nossos RGs, se aparelhos médicos devem ou não ser desligados em casos extremos.

Não posso deixar de recordar três citações. A primeira, “memento mori“, expressão em latim que ressalta o óbvio nem sempre relembrado: todos nós vamos morrer. A segunda, uma frase de Sêneca: “Morremos mil vezes do medo de morrer“. Por fim, a terceira: o epitáfio da lápide de Nancy Beth Cruzan, que faleceu em circunstâncias semelhantes ao caso de Terri: “Nasceu em 20 de julho de 1957/ Partiu em 11 de janeiro de 1983/ Em paz em 26 de dezembro de 1990“.

Requiescant in pace.

Escrever é fácil?

Por Alexandre Inagakiquarta-feira, 23 de março de 2005

O leitor mais atento já deve ter percebido que este blog anda imerso numa fase reflexiva. Para usar uma imagem de Fernando Pessoa, estou como um novelo embrulhado para dentro. É por essas e outras, por exemplo, que me mantive alheio à interessantíssima discussão sobre o voto nulo desencadeada por Idelber Avelar. Ando tão enredado com meus questionamentos pessoais que mal consigo pôr a cabeça pra fora e pensar decentemente no caso Terri Schiavo, a contenda China x Taiwan, a reforma ministerial que não houve e outros assuntos que acabam desembocando no nosso dia-a-dia. Vivo, pois, numa daquelas fases de introspecção que me fizeram chegar à conclusão de que não sirvo para a literatura.

Explico melhor. Quando ainda fomentava planos de ser escritor, ficava cá encasquetado com o seguinte dilema: meus textos mais, hmm, densos, eram concebidos nos momentos em que estava mais fodido sentimentalmente. Nessas horas eu queria mais que o mundo lá fora se lascasse, porque eu só conseguia pensar na merda dos desencontros dessa vida que faziam com que meus relacionamentos fossem pras cucuias. Por outro lado, quando eu me sentia bem comigo mesmo, a inspiração ia prum bar tomar chope com os camaradas e eu não escrevia uma linha decente sequer.

Foi aí que me apercebi do fato de que jamais conseguiria ser o romancista que almejava ser. Porque o bom prosador é aquele que transcende os fatos de sua própria vida para escrever sobre dinamites pangalácticas, bibliotecas em Babel, desertos tártaros e o que mais sua imaginação conceber, independendo das contas a pagar, das mulheres esquivas, dos filhos na escola, dos parentes serpentes, das crises de hemorróida, etc etc.

Outra coisa: escrever nunca foi uma atividade fácil para mim. Recordo a frase lapidar de Douglas Adams: “Escrever é fácil. Tudo o que você tem a fazer é ficar olhando fixamente para uma folha em branco até a sua testa começar a sangrar“. Quando lembro que Hemingway arrebentou a cabeça com uma espingarda por achar que seu talento havia esgotado, Pessoa renunciou ao amor de uma mulher em nome de sua compulsão literária, Gogol finalizou a segunda parte de “Almas Mortas” para em seguida ateá-la ao fogo e Poe afogou suas angústias até estourar o fígado, penso ainda em autores como Virginia Woolf, Yukio Mishima, Pedro Nava, Anne Sexton, Horacio Quiroga e tantos outros que abreviaram suas passagens por esta vida. E aí, sou tentado a concluir que sábio mesmo foi Rimbaud, que escreveu o que tinha de escrever e depois foi viver sua vida fora dos livros.

Porém, é preciso fazer a devida ressalva: como bem comentou José Roberto Torero em uma entrevista que fiz com ele, também há pedreiros que cortam os pulsos, dentistas que tomam veneno, contadores que pulam das janelas. Mesmo assim, não posso deixar de pensar na definição de Adams e no questionamento que fiz a um cineasta amigo meu: se fossem opções rigorosamente excludentes entre si e você pudesse escolher uma delas, desejaria ser um grande artista ou um cara anonimamente feliz?

(Mas tergiverso, tergiverso. Preciso laçar os pensamentos que se debatem em torno do tema feito cavalos chucros, a fim de concluir este post.)

Felicidade, fora do plano estritamente pessoal, é uma coisa chata e tediosa. Percebam: jornais precisam anunciar mortes, desastres e divórcios a fim de venderem suas edições. Filmes complicam a vida de seus protagonistas com brigas, discussões e mal-entendidos, porque no momento em que o casal se entender, saberemos que a história não deve mais ser contada e chegará ao happy end. Os grandes livros falam de homens transformados em baratas, assassinos de velhinhas ou árabes, esposas adúlteras que se suicidam, tuberculosos em crise existencial, filhos que matam o tio que comeu sua mãe… Enfim, uma desgraceira só. A arte se alimenta dos dramas da vida.

E eu, que tantas vezes tenho sido vil e errôneo, hoje me limito a um dia tentar conseguir apreender a tal arte de viver bem e encontrar uma cúmplice que me acompanhe por aí.

* * * * *
P.S.: Quero aproveitar o feriado que vem por aí para colocar minha correspondência pessoal em dia (ou quase). Quem quiser me escrever, pois, será muito bem-vindo. =)

Ruth Lemos, Gary Brolsma e Adolar Gangorra

Por Alexandre Inagakidomingo, 13 de março de 2005

Caroline Bittencourt foi expulsa do casamento de Ronaldo com Daniela Cicarelli, teve triplicado o seu cachê como modelo e recebeu diversos convites para apresentar programas de TV e posar nua. Ricardo Duna tornou-se o corno mais famoso do Brasil ao ver sua esposa flagrada na praia do Leblon aos beijos com Chico Buarque, mas teve uma resenha elogiosa do seu CD publicada na Veja desta semana. Hoje famosos, amanhã esquecidos: a cada semana novas personalidades são criadas pela necessidade famélica que a mídia possui de criar novos personagens, por mais irrelevantes que sejam os motivos que levam um anônimo a ser catapultado para as manchetes de revistas e jornais. Em contrapartida, há aqueles que tornam-se famosos a contragosto. Dois “fenômenos” recentes da Web ilustram essa afirmação: Gary Brolsma e Ruth Lemos.

garynumanuma.jpgGary Brolsma, 19 anos, ficou conhecido entre seus colegas da Saddle Brook Middle School por dois motivos: um peculiar senso de humor e seu gosto por novas tecnologias. Em entrevista ao New York Times, Susan Sommer, professora de Gary, recorda que era a ele que recorria sempre que os computadores da escola necessitavam de algum conserto. Já os amigos de Brolsma destacam seu lado criativo: ele costumava, por exemplo, distribuir aos colegas fitas-cassete em que gravava comerciais satíricos de produtos como Prozac.

Pois bem: numa certa tarde ociosa de dezembro de 2004 este jovem de New Jersey resolveu usar sua webcam para filmar a si mesmo dublando a canção pop “Dragostea Din Tei”, gravada pelo grupo romeno O-Zone e popularizada no Brasil graças à nefasta versão “Festa no Apê” cometida por Latino. O vídeo, inegavelmente hilariante, foi originalmente distribuído a alguns parentes e colegas, que não resistiram à tentação de repassá-lo a outros “muy amigos”, e assim foi até que a performance de Gary fosse parar no Newgrounds, site especializado em disponibilizar a seus visitantes animações em Flash e vídeos extraídos da tevê ou criados por internautas. Foi o que faltava para Brolsma tornar-se o novo superstar da Web: em poucas semanas sua performance angariou mais de 1 milhão de page views, após a exibição de seu desconcertante vídeo por canais como VH1 e CNN.

No entanto, ao contrário do que era de se esperar nestes tempos de celebridades instantâneas, Gary recolheu-se: recusou uma solicitação de entrevista do New York Times, assim como os pedidos feitos por canais de TV como a NBC para que aparecesse em seus programas. Refugiado da fama, não atende mais telefonemas e deixou de ir à escola, simplesmente porque, segundo relatos de parentes, Gary estaria mortalmente envergonhado com a superexposição de sua imagem.

Fenômeno semelhante aconteceu no Brasil com a nutricionista Ruth Lemos. Em entrevista concedida ao vivo ao telejornal “Bom Dia Pernambuco”, da TV Globo, dona Ruth atrapalhou-se toda com a situação, gaguejando de modo deveras aflitivo, devido ao nervosismo e ao fato de ouvir a própria voz no fone de ouvido com um delay de alguns segundos. As pessoas que assistiram ao vídeo dividem-se entre as que se regozijaram de tanto rir e as se angustiaram com tamanha vergonha alheia. Eu, por exemplo, sou um cara cronicamente tímido. Toda vez que sou obrigado a falar em público me atrapalho: fico burro, gago e fanho. Confesso que ri na primeira vez em que vi o vídeo, mas depois fiquei pensando no estado em que esta mulher deve ter ficado após tamanha exposição na Web.

ruthlemos.jpgAlém das inúmeras comunidades criadas no Orkut em seu “louvor”, o fenômeno “sanduíche-iche” criado pela dicção ímpar de Lemos inspirou a criação de ícones para MSN, uma sátira com atores, animações e diversos arquivos mp3 com samplers de sua voz. Apesar de toda a gozação, a fama virtual não foi de toda ruim para a nutricionista, que viria posteriormente a estrelar um comercial para a Intelig.

Para não dizer que fama na Internet é sinônimo de desastre, vale a pena citar o que ocorreu com Adolar Gangorra, pseudônimo de um autor que há tempos publica textos na rede. Ao navegar pela rede, a atriz Fernanda Torres encontrou uma crônica que lhe chamou a atenção, intitulada “Como me Fudi por Completo no Show dos Los Hermanos“. Interessada em encenar o texto, Fernanda, por intermédio de uma matéria no jornal O Globo, pediu que o autor da crônica entrasse em contato com ela. Dias depois, o escriba que se esconde por detrás do pseudônimo Adolar Gangorra contatou a atriz. Diga-se de passagem, não é o primeiro texto de Adolar que foi parar no palco: é dele também a autoria de “Análise Comportamental e Crítica da Música Eduardo e Mônica“, adaptado para o teatro pelo grupo Cemitério de Automóveis.

Quem será o próximo a ter seus 15 bytes de fama?

O amor, esse labirinto

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 11 de março de 2005

Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:
Pois os olhos são os espiões do coração.
E vão investigando
O que agradaria a este possuir.
E quando entram em pleno acordo
E, firmes, os três em um só se harmonizam,
Nesse instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que os olhos tornaram bem-vindo ao coração.

(poema de Guiraut de Borneilh citado no livro "O Poder do Mito", de Joseph Campbell e Bill Moyers)

* * * * *

Coração labirintoUma pessoa racional, frente ao desafio da edificação de um labirinto, cartesianamente chegará à conclusão de que ele deverá ser construído de dentro para fora. Caso contrário, o arquiteto correrá o sério risco de se ver perdido dentro de sua própria criação.

Pois bem, o que faz o tal do amor? Contraria todas as regras mais básicas, inclusive essa.

Amar é construir um labirinto de fora para dentro. Continue Lendo

All your memes are belong to us

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 01 de fevereiro de 2005

“De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo”.

Já perdi a conta de quantas vezes encontrei o parágrafo acima em blogs, listas de discussão e e-mails. Mais do que a velocidade com que a mensagem se propagou ou a espantosa quantidade de blogueiros que postaram essa mesma frase, o que me saltou aos olhos foi a relação desse caso com a intrigante teoria dos memes.

Resumindo grosseiramente, memes seriam vírus mentais que se reproduzem feito Gremlins molhados, e que se propagam mundo afora hospedando-se nos cérebros de incautos como eu e você. Segundo o biólogo Richard Dawkins, que cunhou o conceito em seu livro O Gene Egoísta, memes podem ser “músicas, idéias, slogans, modas de roupas, modos de fazer vasos ou de construir arcos”. Uma vez incutidos em nossos cérebros-hospedeiros, são passados adiante através da imitação (o termo é originário da palavra grega “mimeme”, “imitação” em grego).

geneegoista.jpgE assim, nesse processo de “Maria vai com as outras”, febres passageiras (como bambolês e tamagotchis) ou não (contar piadas de elefante, cantar Parabéns Pra Você em festas de aniversário) difundem-se mundo afora, da mesma maneira que músicas infames (de Florentina de Jesus à Egüinha Pocotó), modismos de estação (dança da Macarena, calças semi-bag, piercing no umbigo), lendas urbanas e tudo o mais que possa ser transmitido culturalmente. Agiríamos, pois, como aquele torcedor de estádio de futebol, que vê a multidão se levantando em uma ola e repete o gesto mecanicamente. Ou como o participante de uma flash mob ocorrida na Avenida Paulista que, ao ser indagado sobre o porquê da sua participação, declarou: “foi boa a sensação de estar fazendo parte de alguma coisa, mesmo sem saber pra que ela servia“. Como afirmou Timothy Leary, “memes são conceitos-chave que podem ser perfeitamente manipulados a fim de programar mentes alheias” (alguém aí pensou no slogan da Nova Schin?).

Como não poderia deixar de ser, grande parte dos cientistas sequer reconhece a existência de memes. Pudera: a julgar pelo seu conceito, seres humanos podem ser vistos como autômatos programáveis dentro dos quais idéias, modas e teorias se reproduzem em um embate constante a fim de sobreviverem e serem propagados para as gerações seguintes. Idéias e ideologias, portanto, seriam transmitidos por “contágio”, e não por convicção ou livre arbítrio. Reportagem de Jerônimo Teixeira publicada na edição de setembro de 2003 da revista Superinteressante cita uma afirmação lapidar do filósofo americano Daniel Dannett sobre o tema: “um acadêmico é apenas o meio que uma biblioteca utiliza para produzir outra biblioteca“. Richard Dawkins chegou a afirmar, em seu livro Viruses of the Mind, que as religiões não passam de “complexos de memes co-adaptados” (e você que achava que Diogo Mainardi é polemista).

Esteja correta ou não, é estimulante saber mais a respeito da memética, a disciplina dedicada ao estudo teórico dos memes. Para tanto, vale a pena conhecer os textos de estudiosos como a psicóloga Susan Blackmore, ou simplesmente fazer uma busca no Google (há mais de 2 milhões de sites sobre o assunto). Afinal de contas, haveria terreno mais fértil para a propagação de teorias, fundamentadas ou não, que a Internet?

(texto publicado originalmente em 23.09.2003)

Conversa de bar

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 27 de janeiro de 2005

À guisa de introdução: o texto a seguir foi criado a seis mãos, por Renata Parpolov, Ian Black e este que vos escreve, e publicado originalmente na edição 004 do Spam Zine. O texto, descompromissado feito uma boa conversa numa mesa online de bar, aguarda por novos pitacos no espaço destinado aos comentários. =)

* * * * *

Inagaki: Ainda bem que depois que cresci deixei de alimentar meu coração com a pobre dieta das paixões platônicas, que só têm graça para filósofos gregos e adolescentes cheios de espinhas e dúvidas existenciais.

Parpolov: Que nada, Inagaki, amor platônico é muito legal! Tem amor que sem dúvida é pra ser vivido, sentido, com todas as suas bocas, beijos, e fluidos. Mas tem amor que você sabe que não é pra você, mas mesmo assim insiste em sentir. Amores que você só fica pensando na pessoa, imaginando como será que ela beijaria, ou faria sexo. E, claro, você imagina que a pessoa é perfeita, absurdamente perfeita em tudo, e que saberá te agradar da maneira mais detalhista que você jamais imaginou.

Inagaki: Ms. Parpolov, eu entendo o seu ponto de vista. E faço aqui um mea culpa: talvez seja eu quem esteja por demais mergulhado no mundo dos sentidos, plenamente convicto de que vale mais uma (sorry pela expressão, não achei outra mais adequada) trepada homérica do que zilhões de amores platônicos.

enloucrescendo.gifIan: Não podemos esquecer o fato de que a masturbação é uma continuidade do amor platônico. São momentos em que o objeto do desejo é totalmente seu e você faz o que quiser, quando, onde e como você bem entender, seja ele uma personalidade hollywoodiana ou uma pessoa estranha que passou do outro lado da rua.

Parpolov: Platão tava certo sim. Quando você realiza o tal sonho platônico, descobre a imperfeição. Porque aí tudo vira realidade: o beijo nem é essas coisas, o fulano ou fulana faz um sexo meio medíocre mesmo, e apesar daquele rosto perfeito, o tal indivíduo ou indivídua fala muita, mas muita besteira mais broxante do que um pum debaixo do cobertor. E você levanta, põe a roupa e vai embora pensando: “nossa, como era mais legal quando tava só na minha cabeça…”.

Inagaki: Sonhos sonhos são. Sei lá Renata, sou um cara que, em termos de amor, procura não idealizar muito as coisas. Porque apaixonar-se é desencadear um processo de criação de expectativas que nem sempre se cumprem na realidade. Sim, eu compreendo a defesa que você faz do amor platônico. E sei, muito bem, o quanto é gostoso a gente de repente se perceber capturado pela arapuca da paixão, pensar naquela pessoa e sentir o coração criando asas, dando cambalhotas, enxergando estrelas onde não há. Mas, putz, tem coisa melhor do que transportar esse mundo onírico pro nosso plano terrestre? Não sei, acho que sonhos são uma maneira de felicidade ilusória e transitória.

Parpolov: Qual felicidade não é transitória, babe!!!?? Às vezes sonhar pode ser melhor do que a realidade, às vezes não. Tem vezes que você descobre, tipo, sonhar era bom, aí você vai, faz e vê que é melhor fazer do que sonhar. Tem vezes que não, que você vê que teria sido melhor ter ficado sonhando. Mas tem vezes que você não descobre, ué!! Tem um amigo meu que diz que tudo pode ser.

Ian: Um amor platônico envolve muito o MEDO de descobrir as imperfeições. Ou pior, o medo de nem haver a possibilidade de descobrirmos tais imperfeições. O problema é que sonhamos e sonhamos demais. O amor platônico acaba te incapacitando de criar elos possíveis de relacionamento. Mulder e Scully, a dupla do seriado “Arquivo X”, praticamente não tinham relacionamentos por culpa do amor platônico vivido por eles. Nesse caso, os telespectadores podiam entrar na roda e ficar imaginando como seria legal se os dois pudessem namorar, dividirem uma casa até. Mas no fundo ninguém gostaria disso, porque tínhamos a consciência de que a graça estava naquela tensão vivida pelos dois.

Parpolov: Amor platônico na verdade é um jeito de sentir amor por si mesmo. Pelo que você seria, pra te agradar, se fosse a tal pessoa. Descobrir mais ou menos o que você quer pra você, e o tal “amado platônico” não passa de cavalo do santo. Claro que não pode ser algo do tipo “preciso conquistar fulano de qualquer jeito”, porque aí vira um treco meio doentio e sem muita esperança de dar certo de nenhuma forma. Lembre-se: é tipo aquelas paixões do primário, que a gente não pode contar de jeito nenhum. Só que desta vez é diferente, porque você não quer que role, porque sabe que vai estragar.

Inagaki: Pressuposto básico pra gente ser capaz de dar amor é amar a si mesmo. Mas, mais uma vez, continuo valorizando a experiência prática. Nada como conviver com alguém de quem a gente gosta mesmo pra tentar se tornar uma pessoa melhor: menos egoísta, mais tolerante, mais generoso. Porque amar é fazer pequenas concessões em nome de algo maior. Eu até dou o braço (um pouquinho) a torcer: amores platônicos possuem lá o seu encanto. Mas, comparados com um amor pra valer, são como ossos pra cachorro. Jogue um pedaço de picanha, e veja se o cão vai pegar o osso ou a carne…

Parpolov: CALMA LÁ!!! Amor platônico não é lifestyle, é só uma certa massagem terapêutica na alma. Temos que amar SIM, temos que encontrar nossa cara-metade SIM, temos que ser bem resolvidos com nossos sentimentos e sexualidade SIM. “Amor platônico é um jeito de voar, porque alivia os pés cansados de só andarem na terra” (putz, falei bonito agora hein! Essa frase é de um cara chamado Ganymedes José :)).

Ian: Ainda insisto no medo como a maior influência do amor platônico. Às vezes superamos este medo e até conseguimos viver um amor de verdade. Mas pode acontecer da gente conviver com alguém que a gente gosta MESMO, e acabar se tornando uma pessoa pior, egoísta, intolerante, gananciosa. Amores platônicos são bons quando percebemos que é praticamente impossível que ele tenha continuidade no mundo de verdade. Amores platônicos são uma merda quando percebemos que há uma possibilidade mínima de dar certo, e preferimos ficar no quentinho das nossas ilusões com medo de nos machucarmos por aquilo que acreditamos.

Inagaki: Olhe, o fato é que ainda faço restrições quanto ao amor platônico porque valorizo mais as experiências práticas (continuo não trocando um beijo gostoso na boca por milhões de oníricos).

Parpolov: Eu também não troco. Mas troco um beijo ruim por meio beijo onírico gostoso. Pode até ser com a mesma pessoa aliás. Atualmente, uns três principes diferentes habitam os meus sonhos. Nada me garante que virarão sapos ao ser beijados, mas, ainda assim, melhor três príncipes na cabeça do que três sapos na mão. Irrrc!!!

Ian: Amores “práticos”, quando (possíveis e) bem resolvidos, são indiscutivelmente melhores que os platônicos. Poderíamos ter tido esta discussão algumas semanas atrás, não?

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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