Top 5 Cássia Eller

Por Alexandre Inagakisegunda-feira, 10 de dezembro de 2012

No dia 13 de janeiro de 2001 eu estava no Rio de Janeiro, com o objetivo específico de ver ao vivo, pela primeira vez, um show do R.E.M. As expectativas eram altas, mas foram plenamente cumpridas: Michael Stipe e sua trupe fizeram um dos melhores shows que vi em toda a minha vida (este texto de Marcelo Costa, um dos mais de 170 mil espectadores daquela noite no Rock in Rio III, é um belo relato). Porém, apesar da noite apoteótica, saí de lá com um arrependimento: não ter assistido ao show que Cássia Eller havia feito horas antes. O motivo: eu e meus acompanhantes (Suzi, Ian e meu irmão Ronaldo) decidimos curtir um pouco a praia antes de nos deslocarmos até a Cidade do Rock, e só chegamos a tempo de conferir os shows de Beck, Foo Fighters e R.E.M.

Cássia tinha sido a primeira artista a se apresentar naquele dia, que também teve shows de Fernanda Abreu e Barão Vermelho. Apesar de ter feito a abertura, senti que ela havia feito uma apresentação antológica, só de ouvir os burburinhos da galera que ainda comentava a versão que ela tinha cantado de “Smells Like Teen Spirit”, assim como o momento em que ela levantou a blusa e exibiu seus seios para as milhares de pessoas na plateia daquela edição do Rock in Rio. Uma pena ter perdido aquele show, pensamos, mas não era algo irremediável. Afinal de contas, Cássia Eller estava no auge do sucesso e teríamos muitas oportunidades de assisti-la ao vivo. E, de fato, entre maio e dezembro de 2001, Cássia Eller embarcou numa rotina insana, chegando à marca impressionante de 95 shows, capitalizando o merecidíssimo sucesso do Acústico MTV, lançado em março daquele ano.

O corpo de Cássia, que dos 4 aos 24 anos teve febre reumática, além de arritmia cardíaca na infância, cobrou a fatura de uma mulher que, submetida a um ritmo incessante de trabalhos, estava estressada, cansada e debilitada com crises de abstinência de drogas e bebida. Sua morte precoce, por parada cardiorrespiratória e enfarto do miocárdio, estarreceu a todos. E é importante esclarecer, aliás, que não se tratou de overdose de drogas, hipótese especulada por matérias sensacionalistas e posteriormente descartada pelos laudos periciais do Instituto Médico Legal.

E foi assim que, aos 39 anos de idade, aquela mulher que chegou a trabalhar como garçonete, cozinheira em bares, ajudante de pedreiro, redatora, tradutora, secretária no Ministério da Agricultura (emprego do qual foi demitida no terceiro dia) e cantora num grupo de forró, antes de se consagrar como a voz feminina que marcou o cenário musical brasileiro dos anos 90, deixou este mundo mais triste e incompleto sem a sua coruscante presença.

No dia 10 de dezembro de 2012, ela faria 50 anos de idade. Todo pretexto, de qualquer modo, é válido para relembrar as gravações de uma artista impulsiva, talentosa, afetuosa, marcante. A seguir, as minhas cinco músicas favoritas de Cássia Rejane Eller.

* * * * *



5. “Por Enquanto” – Cartão de visitas do seu álbum de estreia, gravado em 1990, é a prova irrefutável de uma intérprete que, ao doar sua personalidade a cada canção, tornava suas as composições de terceiros. E assim, “Por Enquanto” (faixa de encerramento do primeiro álbum da Legião Urbana) virou uma música que será para sempre associada à voz de Cássia.

4. “Relicário” – Uma das palavras mais belas da língua portuguesa ganhou uma música que faz jus ao seu significado: “caixa, cofre, bolsinha ou medalha com relíquias que algumas pessoas trazem ao pescoço, por devoção; algo precioso, de grande valor.” E que, na versão do Acústico MTV, gravada em 2001, recebeu a sua interpretação definitiva, em um dueto antológico de Cássia com o compositor desta jóia da MPB, Nando Reis.

3. “E.C.T.” – Gravada por Cássia pela primeira vez em seu álbum de estúdio de 1994, esta composição de Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown narra a história de um carteiro que é flagrado lendo uma carta de amor. A destinatária, indignada (“Esse recado veio pra mim, não pro senhor”), além de ter sua correspondência violada, ainda acabaria vendo sua carta virar canção (“Mas esse cara tem a língua solta”). Obra, enfim, de um carteiro inconfidente, que leva o mundo e não vai lá. Apesar de “Malandragem”, composição de Cazuza e Frejat que havia sido destinada originalmente para Ângela Rô Rô, ter sido o grande sucesso, a narrativa de “E.C.T” (sigla de Empresa de Correios e Telégrafos) é a minha faixa favorita desse disco.

2. “1° de Julho” – Esta é a canção que Renato Russo fez especialmente para Cássia na época em que ela estava grávida de seu filho Francisco Ribeiro Eller, o Chicão. Quando foi gravada em estúdio, em 1994, Cássia interrompia as sessões de estúdio a fim de amamentar o filho. Registrada também no Acústico MTV, é para mim uma das mais inspiradas letras de Renato, que descreveu a gravidez com versos como “Vamos descobrir o mundo juntos, baby/ Quero aprender com o teu pequeno grande coração”. Chicão, que atualmente toca percussão na banda Zarapatéu, mora com a viúva de sua mãe, a nutricionista Maria Eugênia Vieira Martins. Em tempo: sobre a harmoniosa família que acabou sendo composta por Cássia, Maria e Chicão, recomendo a leitura da matéria que Silvia Pilz escreveu para a revista Piauí.

1. “O Segundo Sol” – Uma música enigmática, cativante, poderosa, apaixonante. Gravada em “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo”, de 1999, esta composição de Nando Reis é aberta a inúmeras interpretações sobre seu significado. É uma canção sobre o apocalipse? Ou o segundo sol é uma metáfora sobre o poder iluminador e destrutivo do amor? Talvez a música fale, no fim das contas, das perguntas sem respostas que fazem com que a vida seja tão injusta, fascinante e incrível. Parafraseando Vinícius: que a vida não seja imortal, posto que é chama que arde sem explicação, mas seja infinita enquanto dure. E, claro, enquanto possamos ouvir as canções que Cássia Eller nos deixou como legado.

Pense Nisso!
Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista, consultor de projetos de comunicação digital, japaraguaio, cínico cênico, poeta bissexto, air drummer, fã de Cortázar, Cabral, Mizoguchi, Gaiman e Hitchcock, torcedor do Guarani Futebol Clube, leonino e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos, não necessariamente nesta ordem.

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Comentários do Blog

  • Marcio

    Boa escolha! Fico feliz em saber que em todos esses anos a Cássia
    tocou nas rádios, foi trilha de novela, foi noticia, enfim, uma grande artista
    que será sempre lembrada. Amo Cássia!!

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100004852421508 Thaís Ribeiro

    Faltou “Malandragem” !

  • http://www.necessarias.com Ane Meira

    Baita seleção, mestre! Eu acrescentaria No Recreio, acho que até colocaria no topo. Me debulhei em lágrimas na primeira vez que assisti o clipe na MTV!

  • Elianne- Laura

    Ina, vc sempre excelente- adorei saber mais de Cássia Eller. Bj

  • Aline T.H.

    Das suas cinco favoritas, três são iguais às minhas, só que Relicário viria em primeiro, ECT em segundo e O Segundo Sol em terceiro. A voz dela era inebriante e sincera, tipo a da Elis, que a gente jurava que tava com dor-de-corno quando ouvia “Atrás da Porta”… Saudades. E eu também não fui ao show – junta-se à minha lista, que já tinha Queen e Michael Jackson.

    Beijo!

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=655946500 Cíntia Citton

    Eu tinha saudades de um post desses com seu top 5 … Homenagem mais do que justa à Cássia Eller, aliás.

    Quanto ao segundo sol, eu entendo como sendo uma maneira de dizer que veio dizer que viu que existe outra realidade possível. Enfim, nosso sistema gira em torno de um sol apenas, da mesma forma que para muitos tudo gira em torno de uma só verdade certa e indiscutível. Acho que o segundo sol vem justamente contrariar isso e mostrar que a vida simplesmente “arde sem explicaçao”, é mais forte que os nossos dogmas, que as nossas certezas e discussoes… Enfim, adoro as letras do Nando Reis por essa liberdade que ele deixa ao seu ouvinte, e a Cassia Eller vestiu perfeitamente a cançao com a sua voz e verdade. Obrigada pelo som, convite à reflexao, e também pelos links, eu nao tinha lido esse texto da Sílvia Pilz, adorei também. Beijabraço…

Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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