MTV pra quê?

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 18 de agosto de 2006


Nina Simone, My Baby Just Cares For Me – Os estúdios Aardman, mesmos responsáveis por Fuga das Galinhas e os filmes de Wallace & Gromit, também produziram esta animação em stop motion desta canção originalmente composta para um musical hollywoodiano dos anos 30. Nina regravou My Baby Just Cares For Me em um álbum de 1957, mas sua versão tornou-se sucesso pop mesmo em 1987, quando foi utilizada como trilha sonora de um comercial do perfume Chanel No 5, tornando-se o passaporte para que novas gerações conhecessem a arte desta diva cuja voz é um ombro para aninhar corações desabalados.

Nick Drake, River Man – Em 1969 Drake, aos 21 anos de idade, lançou seu primeiro álbum: Five Leaves Left. O disco reúne dez canções que soam etéreas, eternas. Dentre elas, há “River Man”: alguns acordes dedilhados no violão, o belo arranjo de cordas de Harry Robinson e a voz suave de Drake. Por uma dessas injustiças que acontecem constantemente, o álbum não chegou a vender sequer 5 mil cópias. É dolorido saber que Nick Drake morreu de uma overdose do antidepressivo Tryptizol aos 26 anos, com apenas três álbuns gravados, sem ter recebido o merecido reconhecimento por suas gravações. A propósito: não existem registros em filme de Drake, apenas fotografias.

Leonard Cohen, Suzanne – Suzanne era uma mulher casada com um amigo de Cohen. Em uma tarde, Cohen encontrou-se com Suzanne em seu estúdio, e ela lhe serviu um chá com rodelas de laranja. Desse encontro e dessa atração que restringiu-se à esfera platônica (“And you know that she will trust you/ For you’ve touched her perfect body with your mind“) surgiu aquele que viria a se tornar o primeiro dentre tantos clássicos interpretados por este escritor, poeta e cantor canadense. O clipe integra um vídeo de 24 minutos intitulado I Am a Hotel, que Cohen criou junto com Mark Shekter, reunindo quatro outras canções deste músico de voz melancólica e gutural

Marvin Gaye & Tammi Terrell, Ain’t No Mountain High Enough – É uma pena que a carreira desta que foi a mais mesmerizante dupla do soul tenha durado tão pouco. Durante um show da turnê do primeiro álbum da dupla Gaye & Terrell (United, de 1967), ela desmaiou nos braços de Gaye. Causa: tumor no cérebro. Ela jamais recuperaria plenamente a saúde, assim como nunca mais se apresentou ao vivo depois desse incidente. Especula-se que a doença que vitimaria Tammi tenha sido causada pelos sopapos que levou de James Brown (de quem foi backing vocal), David Ruffin dos Temptations (de quem também apanhou) e o boxeador Ernie Terrell (seu ex-marido). Tammi passou por oito cirurgias de cérebro antes de falecer em 16 de março de 1970, aos 24 anos. A morte de sua parceira fez com que Marvin mergulhasse em uma profunda crise depressiva, ficando afastando dos estúdios por mais de um ano. Seu catártico retorno à música viria com a gravação de sua obra-prima: o álbum What’s Going On de 1971.

Nancy Sinatra, These Boots Are Made for Walking – Este vídeo de atmosfera swinging London é um deleite para fetichistas. Pudera: o que dizer deste protoclipe que apresenta várias mulheres exibindo suas longas pernas, trajando apenas sueters, meias-calças e botas? These Boots Are Made for Walking, maior sucesso da carreira de Nancy, filha de Frank Sinatra, foi originalmente gravado em 1966. Uma adaptação de sua letra viria a se tornar trilha sonora das tropas norte-americanas na Guerra do Vietnã, que a cantavam enquanto marchavam. Nancy, que posou para a Playboy em 1995 (aos 54 anos de idade), mantém até hoje sua carreira musical, lançando singles de sucesso como “Shot You Down” (com o grupo eletrônico Audio Bullys) e “Let Me Kiss You” (composta por seu fã Morrissey).

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P.S. 1: Mais vídeos da série “MTV pra quê?” estão disponíveis em minha página no Multiply.
P.S. 2: Eis a minha nova colaboração para o Cracatoa Simplesmente Sumiu: Vidas Possíveis, texto com ilustração de Guga Schultze.

Dois convites

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 15 de agosto de 2006

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Nesta quarta-feira, dia 16 de agosto, Ana Maria Gonçalves autografa Um Defeito de Cor a partir das 18:30 na Livraria da Vila. Com a palavra, Millôr Fernandes ao recomendar a leitura do livro de Ana Maria: “Desmintam-me, por favor. É um dos livros mais importantes, coloco entre os melhores que li em nossa bela língua eslava. Entre os 100 melhores, Millôr? Que exagero é esse, rapaz?, entre os 10. TE CUIDA, SARAMAGO!“.

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Sábado, dia 19, a Primavera dos Livros de São Paulo promoverá uma mesa de debates intitulada “Blog e Literatura, Blog é Literatura?”. Com moderação de Marcelo Duarte, o debate contará com as participações de Ivana Arruda Leite, Índigo, Rosana Hermann e Bruna Surfistinha. O local: Centro Cultural São Paulo, a partir das 17 horas. Dica extra: conferir o stand da Editora Barracuda e adquirir os excelentes livros de seu catálogo com descontos de até 40%!

Ema, ema, ema

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 15 de agosto de 2006

Anomia é um conceito sociológico utilizado para descrever um estado de coisas no qual o comportamento dos membros de uma sociedade deixa de ser pautado pelas normas sociais. Ou seja: as pessoas deixam de ligar para as possíveis punições decorrentes da infração das leis simplesmente porque já não crêem, ou já nem ligam, para o fato de estarem quebrando as regras do contrato social.

Que outra palavra, pois, pode ser utilizada para descrever com maior propriedade fatos como o recente incidente envolvendo Guilherme Portonova? Vejam só: o PCC ordenou o seqüestro de um jornalista da Globo com o intuito de defender seus interesses. A emissora, por sua vez, viu-se na situação de atender às exigências de um grupo criminoso a fim de tentar salvar a vida de seu funcionário. E as autoridades, onde estavam nessa história toda? Enquanto PCC e Rede Globo negociaram diretamente a exibição de um manifesto na TV produzido por um grupo composto por assaltantes, homicidas e traficantes, onde estava o Governo para garantir a lei e a punição aos responsáveis por essa ação? Caso a Globo não tivesse cedido espaço em sua programação para dar voz aos bandidos, que garantia as autoridades poderiam dar sobre a vida de Guilherme Portonova?

Ema, ema, ema, cada um com seus pobrema“. Metroviários entram em greve, grupos de sem-terra invadem o Congresso Nacional, criminosos ganham espaço na maior emissora nacional porque as autoridades legitimamente constituídas são incapazes de prover segurança à sociedade que os elegeu. Enquanto o governo federal e o governo estadual discutem para saber a quem pertence a maior parcela de culpa pelos acontecimentos recentes, vivemos dias nos quais jornalistas serão obrigados a esconder suas identidades, sob pena de correrem os mesmos riscos que policiais e agentes penitenciários amargaram durante os primeiros ataques generalizados do PCC. Até porque o perigosíssimo precedente já foi criado: quem impedirá o seqüestro de um repórter caso alguma organização criminosa deseje divulgar algum vídeo em rede nacional? Medellín é aqui.

É terrível constatar que, a grosso modo, a recente ação do PCC nada mais foi do que um ato visando a defesa dos seus, hmm, direitos. Porque o fato é que o PCC acabou por se tornar uma espécie de sindicato congregando membros marginalizados da sociedade que, unidos, ganharam mais forças para cobrar o que eles acham que merecem receber. Diante da inapetência e da debilidade do Estado, como impedir que esta união de criminosos recorra a qualquer ato que julgar eficaz para lutar por suas causas (seja ele o assassinato de inocentes, o ataque a ônibus ou bancos, o seqüestro de jornalistas ou qualquer ação que tenha impacto midiático)?

Estes são tempos de barafunda generalizada, nos quais cada segmento da sociedade briga por seus próprios interesses corporativos, deixando de ligar para as conseqüências causadas pelo restante da população. Mas enfim, o que uma sociedade repleta de cidadãos que querem levar vantagem em tudo, jogam lixo nas ruas, sonegam impostos e preferem anular seus votos e omitirem-se da tarefa de pesquisar cuidadosamente seus candidatos e elegerem candidatos decentes (escorados na generalização imbecilizante de que “nenhum político presta”) pode exigir?

Estes são tempos de “ema, ema, ema”. Não é de se admirar, pois, o fato de que estamos todos cada vez mais idos, idos, idos.

Geração Alt + Tab

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 11 de agosto de 2006

Eu, que possuo a mania de navegar pela Web abrindo diversas janelas e abas simultaneamente, encontrei na expressão “Geração Alt + Tab”, cunhada pelo professor da UFBA Nelson Pretto, a melhor definição para pessoas que encontraram na cultura digital o ambiente propício para saciar a sede por informações (que abrangem um leque que vai desde o download de músicas raras de Nelson Cavaquinho até a busca pelo histórico dos candidatos em que votei nas últimas eleições), processando múltiplas coisas ao mesmo tempo, em uma alusão ao hábito difundido por pessoas que usam as teclas Alt e Tab para navegarem pelas inúmeras janelas abertas de seus computadores.

Ao ler a interessantíssima entrevista que Pretto concedeu a Lia Ribeiro Dias para a revista eletrônica A Rede, lembrei de uma matéria de capa que a revista Time publicou em março deste ano, sobre o que eles denominaram de “Multitasking Generation”. O mote da reportagem é um estudo que vem sendo feito há quatro anos por antropólogos da Universidade da Califórnia com 32 famílias de Los Angeles, sobre o impacto que as novas tecnologias vem causando na sociedade. A matéria cita em específico o caso da família Cox e de seus dois filhos, os gêmeos Piers e Bronte, ambos com 14 anos de idade.

Multitasking Generation.Piers termina sua lição de Inglês no Word, ao mesmo tempo que busca no Google Images fotos de Keira Knightley, ouve no ITunes músicas do Queen e AC/DC e mantém diversos papos simultaneamente em seu Messenger com amigos que fez no MySpace. Enquanto isso sua irmã gêmea Bronte, que possui hábitos similares, explica seu modo “multitarefa” de ser: “Meus pais sempre me dizem que eu não posso fazer minha lição de casa enquanto ouço música, mas o que eles não compreendem é que ela ajuda a me concentrar“. Eu, que sempre escrevo ouvindo arquivos mp3 randomicamente no Winamp, poderia ter proferido essa declaração, embora faça a ressalva de que nem sempre música é sinônimo de concentração (que o digam minhas sessões de air drum ao som de Nirvana e Teenage Fanclub).

O fato é que desde criança nutro o hábito de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Faço minhas refeições enquanto assisto TV, folheio o jornal com o Ipod ligado, mando um SMS em meio à elaboração deste post, leio diversos livros simultaneamente. E o fato é que nessa fome de abarcar diversas tarefas ao mesmo tempo, reconheço que nem sempre meu desempenho é o ideal. Tenho a consciência de que se me dedicasse a uma coisa de cada vez provavelmente administraria melhor meu tempo pessoal, terminando os textos que redijo com maior rapidez, mastigando em vez de simplesmente engolir minhas refeições, finalizando os muitos romances que deixei inacabados, olhando com desamparo a Torre de Pisa formada pelos e-mails acumulados para responder.

Eu, que certamente desenvolvi um quê de DDA ao longo dos anos, preciso aprender a driblar as armadilhas fragmentadas da pós-modernidade. Retomo um texto antigo para reiterar o que penso sobre o assunto: que cada um reserve uma porção generosa do dia para dar a si mesmo tempo para contemplar a lua, o sol, as estrelas, o mar, os sorrisos extraviados na multidão que se atropela a si mesma na digestão precoce do cotidiano.

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P.S. 1: Dois, da Legião Urbana, foi lançado há vinte anos. Como parte do especial promovido pelo Digestivo Cultural, escrevi o artigo “Entre o tempo que passou e todo o tempo do mundo“.

P.S. 2: Marcelo Costa, que edita o excelente site de cultura pop Scream & Yell, acaba de estrear sua coluna semanal no portal iG. Recomendo fortemente, pois, uma visita a Revoluttion, sua nova empreitada virtual. Em sua coluna de estréia, uma pergunta: qual o seu disco preferido dos Beatles? Titubeio em escolher entre Revolver e Sgt. Pepper.

P.S. 3: Blogueiro, esteja em dia com seus deveres cívicos. Aliste-se na Blogosfera, lista de discussões recentemente criada por Fabio Seixas, e não deixe de inscrever sua página no Blogblogs, excelente diretório brasileiro.

P.S. 4: Você perdeu a série de entrevistas que o Jornal Nacional fez com os principais candidatos à Presidência? Pois bem, graças ao YouTube e ao blog Tevê Aberta, você pode conferir com um mero clique as sabatinas que William Bonner e Fátima Bernardes fizeram com Cristovam Buarque, Geraldo Alckmin, Lula e Heloísa Helena.

P.S. 5: Trilha sonora deste post: “Nada Tanto Assim“, Kid Abelha (dos versos “Eu sei de quase tudo um pouco/ E quase tudo mal/ Eu tenho pressa/ E tanta coisa me interessa/ Mas nada tanto assim“).

Dez aberturas marcantes de novelas

Por Alexandre Inagakidomingo, 06 de agosto de 2006

Brilhante – Sua bela abertura exibe uma modelo e um gato sendo refletidos ad infinitum por um cenário de espelhos. Contudo, inesquecível mesmo é o seu tema musical, feito por encomenda por ninguém menos que Antônio Carlos Jobim: “Luiza”, canção cujo título ganhou o mesmo nome da personagem principal da novela, interpretada por Vera Fischer. Eu, que na época ainda conhecia pouco de bossa nova, tomei conhecimento da obra de mestre Tom graças a esta novela de Gilberto Braga, exibida de setembro de 81 a março de 82. Mas confesso que “Luiza” ainda é a minha música predileta do maestro, com sua precisa combinação entre letra e melodia. Continue Lendo

Blogo, logo existo

Por Alexandre Inagakisábado, 29 de julho de 2006

Enquanto dicionários como o Aurélio e o Houaiss perdem terreno para a Wikipedia por não terem criado ainda um verbete para a palavra, deixo aqui minha definição: blog é um site regularmente atualizado, cujos posts (entradas compostas por textos, fotos, ilustrações, links) são armazenados em ordem cronologicamente inversa, com as atualizações mais recentes no topo da página. Criados com o auxílio de ferramentas de publicação como Blogger e Movable Type, blogs são páginas dinâmicas e democráticas – qualquer internauta razoavelmente alfabetizado é capaz de criar o seu. Podem ser espaço para observações do cotidiano, mural de recados, laboratório de experimentações literárias, depósito de links curiosos, relicário de agruras sentimentais, diário de viagem ou tudo isso ao mesmo tempo agora.

Tamanha facilidade de publicação não passa impune: segundo o Technorati, há cerca de 49,9 milhões de blogs. É de se pensar: quem lê tanta gente? Há quem diga que blogs são como escritos dentro de garrafas jogadas no mar, que bóiam pela Web em busca de poucos e raros destinatários; não é bem assim. Graças à comunicação feita por links e comentários deixados em outros blogs, estas garrafas virtuais coligam-se em comunidades, amealhando leitores de modo similar ao fenômeno boca-a-boca que transforma filmes obscuros em sucessos cult.

Quem escreve em um blog em geral o faz com uma linguagem informal, descompromissada, não raro pontuada por erros de grafia que denunciam a urgência com que o internauta escreve seu texto, como rascunhos que já nascem com caráter definitivo. Do comando do cérebro ao ato dos dedos digitando no teclado, palavras borbotam e – click! – desembocam direto para a tela.

Na Internet, prevalece a cultura do imediato: teias de aranha virtuais cobrem um site se este não é atualizado pelo enorme intervalo de… um dia. Repare: toda vez que um novo texto é publicado, os anteriores deixam de receber novos comentários. Na blogosfera, mais do que nunca prevalece a cultura do imediato: o post está morto, viva o novo post! Em nome da velocidade no carregamento do site, não mais do que dez artigos são publicados na página inicial, enquanto os anteriores são empurrados para o quartinho dos fundos. Pergunto: quantos gatos pingados possuem o hábito recorrente de vasculhar os arquivos de um blog?

Em precisa analogia, o escritor goiano Nelson Moraes compara os blogs a palimpsestos – “pergaminhos de couro utilizados por monges da Idade Média para registrar textos e gravuras, que de tempos em tempos eram lavados a fim de remover a tinta e gravar novos manuscritos que iam sendo sobrepostos aos anteriores”. Ao contrário dos textos impressos, transportáveis para qualquer local e lidos a qualquer hora, o prazo de validade de um post é o tempo de exposição na homepage. Depois, torna-se jornal virtual a embrulhar peixes cibernéticos precocemente envelhecidos, folheados por uma massa restrita de leitores.

Em meio a tanta fugacidade, há no entanto aqueles que usam os blogs como escoadouro de toda uma produção literária represada. O que antes jazia em fundos de gaveta agora é compartilhado com um clique de mouse. É óbvio que toda essa facilidade de publicação possui dois gumes – há na Web muita literatice constrangedoramente capenga, assim como é possível garimpar autores preciosos que recorrem à interface do blog da mesma maneira que outras gerações criavam fanzines xerocados a fim de divulgar seus escritos.

O blogueiro entra nessa história como um daqueles comediantes novatos que sobem em um palco tal qual na stand-up comedy notabilizada por nomes como Jerry Seinfeld. Despido de cenografia, dá a cara pra bater: ao narrar “causos” autobiográficos ou piadas de próprio punho, arrisca-se a receber apupos ou a indiferença de sua platéia, traduzida pela ausência de comentários ou pela estagnação das estatísticas de seu contador de acessos. Em contrapartida, há aqueles que graças aos blogs tornaram seus nomes conhecidos e foram acolhidos pelo mercado editorial brasileiro, como João Paulo Cuenca, Daniela Abade e Clarah Averbuck.

É preciso falar ainda da crescente influência da blogosfera como meio livre de circulação de informações, tornando-se uma espécie de ombudsman coletivo da grande imprensa em geral. É inevitável citar o caso da demissão do âncora da rede de TV CBS Dan Rather, que coordenou a produção de uma reportagem sobre o passado militar de George W. Bush baseada em documentos falsos, em denúncia feita pelo blog Power Line. Em países sob regimes ditatoriais, como Irã, China e Coréia do Norte, a blogosfera ganha mais relevância ainda, tornando-se preciosa fonte alternativa de informação – representativa a ponto de sofrer severas repressões. Sites como Civiblog e Committee to Protect Bloggers surgiram com o objetivo de denunciar os casos de blogueiros presos simplesmente por veicularem notícias e idéias incômodas a certos governos. É o caso do Irã, nação que mandou para a cadeia diversos blogueiros nos últimos anos, e que ainda mantém sob detenção Mohamad Reza Nasab Abdolahi e Motjaba Saminejad.

No entanto, apesar da severa repressão, o processo de popularidade dos blogs entre os jovens iranianos (existem mais de 60 mil blogs em farsi, o dialeto persa) parece ser irrefreável, especialmente entre as mulheres, que vêem neles uma oportunidade rara de externar suas idéias e sentimentos. Outro aspecto importante: a fim de estabelecer contato com o mundo, muitos iranianos optam por escrever em inglês (vide este diretório), oferecendo a internautas de outros países a oportunidade de conhecer aspectos do cotidiano de um país no qual jovens correm o risco de serem presos por irem a uma festa ou caminhar ao lado de um amigo do sexo oposto.

Ao final deste artigo, não posso deixar de reiterar aqueles que, a meu ver, são os aspectos mais positivos de um blog: o fomento de debates em tempo real, o estímulo à comunicação de idéias, a democratização da publicação de conteúdo na Web e, principalmente, a liberdade de expressão.

* * * * *

P.S. 1: Republiquei este texto, anteriormente veiculado no Correio Braziliense e no Digestivo Cultural, como uma espécie de boas-vindas a todos que conheceram este blog graças à matéria de capa da revista Época desta semana, conduzida por Ricardo Amorim e Eduardo Vieira. A aqueles que imaginavam que blogs não passavam de diarinhos virtuais, ou sequer sabiam o significado da palavra, fica aqui o conselho para que naveguem pelos links da coluna à direita e percam-se por aí. Internet é muito mais do que um meio de veiculação de piadas velhas por e-mails.

P.S. 2: O site da Época publicou uma compilação de links de minha autoria. Inspirado em um site português que, infelizmente, parece estar fora do ar, os 25 momentos da blogosfera brasileira (que, como o navegante atento perceberá, são mais do que vinte e cinco) fazem parte de um trabalho inacabado que deveria ter sido publicado em formato wiki, com a colaboração ativa daqueles que têm feito a história da blogosfera tupiniquim (é um projeto a ser retomado junto com diversas coisas que pretendo fazer até o final deste ano). Pena que, ao menos até o momento em que entrei na página pela última vez, ela estava repleta de hyperlinks errados. Torço para que sejam brevemente consertados.

P.S. 3: Ao ver minha foto na matéria, fiz a inevitável constatação: não nasci para ser top fodel. Pretexto para uso de minha interjeição predileta: nhé!

Salve Ferris!

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 25 de julho de 2006

Ferris Bueller é o cara que todo adolescente gostaria de ser: esperto, popular, de bem com a vida e com uma namorada linda. Cameron Frye, seu melhor amigo, é o rapaz problemático que personifica um lado que todo mundo também já teve: um jovem em conflito com os pais, travado entre a angústia sobre o futuro e as dúvidas existenciais que pipocam na alma feito espinhas na cara. Já Sloane Peterson é a namorada dos sonhos, uma garota cool e comparsa de qualquer aventura que fosse proposta, cuja beleza é admirada (e invejada) por todas as amigas.

Ferris, Cameron e Sloane no Art Institute of Chicago

Não é difícil entender o porquê de uma reprise de Curtindo a Vida Adoidado na TV representar um apelo irresistível para que a gente se ajeite no sofá e curta 102 minutos de diversão descompromissada. Este filme, dirigido e roteirizado por John Hughes em 1986, é o retrato de uma geração sem utopias que simplesmente aspira por uma vida que fuja à rotina besta do dia-a-dia. Facilmente digerível, feito as melhores canções pop, Ferris Bueller’s Day Off (título original do filme que, em Portugal, ganhou o nome de O Rei dos Gazeteiros) dá voz a toda uma geração em uma seqüência na qual Matthew Broderick fala diretamente para a câmera. Continue Lendo

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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