Como a campanha “Xô Sarney” se espalhou pela blogosfera

Por Alexandre Inagakidomingo, 03 de setembro de 2006

Xô Sarney!Tudo começou com um desenho feito pelo cartunista Ronaldo Rony no muro de sua casa, localizada na avenida Mendonça Furtado, no centro de Macapá. A caricatura, uma charge sugestivamente intitulada “Xô Sarney” (imagem posteriormente reproduzida pelo próprio Ronaldo na camiseta da foto à direita, trajada por Patrícia Andrade), expressava os sentimentos de Ronaldo e de boa parte da população amapaense com relação ao ex-Presidente da República José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, que mudou seu domicílio eleitoral do Maranhão para o Amapá em 1990 com o objetivo de assegurar com maior facilidade uma vaga para o Senado Federal. Foi uma boa cartada de Sarney, que atualmente cumpre seu segundo mandato como Senador pelo Amapá. Nas eleições deste ano, o autor de Brejal dos Guajas (que recebeu de Millôr Fernandes o seguinte comentário: “só um gênio conseguiria fazer um livro errado da primeira à última frase“) postula nova reeleição. Contudo, a campanha do ex-presidente tem sido marcada por diversas ações na Justiça impetradas contra jornais e rádios amapaenses.

A coligação União Pelo Amapá, que apóia as candidaturas José Sarney para o Senado e Waldez Goes para o Governo, chegou ao ponto de processar o Google, a fim de solicitar que o site de buscas retirasse de seu arquivo todas as matérias que supostamente veiculassem conteúdo negativo à imagem de seus candidatos. A liminar foi considerada improcedente pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amapá. Mas os advogados da coligação continuariam aprontando das suas.

Na terça-feira, dia 22, a jornalista Alcinéa Cavalcante publicou em seu blog um post intitulado “O Adesivo Perfeito”, no qual afirmava que a frase “o carro que mais combina comigo é o camburão da polícia” seria ótima para estampar o vidro traseiro do carro de um certo candidato. Dois dias depois, os advogados de Sarney entraram com uma representação solicitando a imediata retirada do ar de uma “publicação ofensiva”. A motivação do pedido foi um comentário publicado no post supracitado, assinado pelo leitor Paulo Henrique, fazendo alusão a uma piada antiga sobre certa “fazenda de burros” que o senador supostamente possuiria no Amapá. Além de limar o blog do ar, a ação ainda solicitava a aplicação de uma multa no valor de R$ 106.410,00. O juiz eleitoral Luiz Carlos Gomes dos Santos, mostrando possuir ainda bom senso, indeferiu o pedido feito pela coligação. É inevitável vislumbrar neste imbróglio semelhanças com o caso Imprensa Marrom. Contudo, o pior ainda estava por vir.

Na sexta-feira, dia 25, novo pedido de liminar foi feito em nome do ex-Presidente, desta vez atingindo o blog Repiquete no Meio do Mundo (infelizmente sem registro no cache do Google), mantido pela jornalista Alcilene Cavalcante, irmã de Alcinéa. O motivo da ação foi uma foto publicada com a imagem da caricatura feita por Ronaldo Rony. Por meio de notificação com a liminar concedida pelo TRE do Amapá ao processo 435/2006, Alcilene se viu obrigada a apagar a foto de seu blog, caso contrário estaria sujeita ao pagamento de multa de R$ 2.000,00 por dia. No entanto, embora a blogueira tenha deletado o post com a charge de Sarney, sua página, hospedada no UOL, foi tirada do ar por ordem judicial.

Blogs vs SarneyRestava mais um alvo: o blog de Alcinéa. Em outra representação, a coligação do autor de Marimbondos de Fogo (coletânea de poemas definida por Mestre Millôr como “um livro que quando você larga não consegue mais pegar“) pediu a aplicação de multas e a retirada do ar de seis posts. No dia 26, Alcinéa informa em seu blog que “amigos do Senador” entraram em contato com ela, pedindo desculpas pela “precipitação dos advogados da coligação“. Afirmam que as ações seriam retiradas. Porém, em troca, pedem para que a jornalista amapaense deixe de escrever qualquer texto contra o ex-Presidente. Alcinéa se recusa a aceitar o “trato”. Em ligação recebida em seu celular às 20:34, outro “amigo de Sarney” afirma que se a “briga” não fosse encerrada a coligação União Pelo Amapá entraria com ações contra “os jornalistas Cláudio Humberto, Chico Bruno, Alcilene Cavalcante e todo e qualquer jornalista ou blogueiro que se manifestasse contra Sarney“.

Enquanto isso, a campanha “Xô Sarney” espalha-se pela blogosfera, através da reprodução do desenho de Ronaldo Rony em diversos sites. Ao publicar a imagem que desencadeou a censura ao blog de Alcinéa Cavalcante, Marcelo Tas escreveu: “Os jornalistas e eleitores do Amapá têm todo direito de se expressar. E claro, de escolher seus legítimos representantes. De dizer não, este ano, agora mesmo, a este oportunista bigodudo“. No dia 29, matéria de Thiago Reis para a Folha Online já contabilizava 80 blogs engajados na campanha.

Sexta-feira, dia 1, em mais um flagrante atentado à liberdade de expressão, o blog de Alcinéa Cavalcante foi enfim tirado do ar. O fato repercute no exterior e faz com que o Brasil passe a se equivaler a países como China e Irã, que também possuem o hábito pouco edificante de censurar blogs por motivos políticos. Alcinéa não desiste de escrever e migra seu blog para um servidor no exterior, passando a postar na URL http://alcineacavalcante.blogspot.com. A campanha “Xô Sarney” alastra-se de vez pela blogosfera.

Em bem-humorado texto publicado pelo Jornal Pequeno, de São Luís, MA, o responsável pela coluna “Informe JP” relata o crescimento do movimento “Xô Sarney”, mas faz um alerta aos amapaenses: “Nós, aqui do Maranhão, não aceitamos devoluções (…) Não adianta apelar para o Código do Consumidor: o prazo para devolver a mercadoria já prescreveu“. Enquanto isso, pesquisas detectam que a candidatura do pai de Roseana parece perder fôlego, uma vez que sua concorrente mais próxima, Cristina Almeida (PSB), avançou de 15,4% para 29% das intenções do voto. Aguardemos pelos próximos capítulos, cruzando os dedos e divulgando a odisséia amargada pelas irmãs Alcilene e Alcinéa Cavalcante em suas batalhas contra os advogados do autor de Marimbondos de Fogo.

Porque os comentários deste blog passarão a ser pré-aprovados antes da publicação

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 31 de agosto de 2006

Em 30 de setembro de 2004 publiquei um post intitulado “Aberta a temporada de caça aos blogs“. Nele, eu relatava o que havia acontecido com o blog Imprensa Marrom, que havia sido retirado do ar por ordem da Justiça, atendendo à solicitação de um sócio de uma certa empresa de recolocação de profissionais, que se sentiu ofendido com um comentário deixado por um visitante do blog. Detalhe: o autor da liminar sequer havia entrado em contato com Fernando Gouveia (mais conhecido na Web pelo seu pseudônimo, Gravatai Merengue), responsável pelo Imprensa Marrom, solicitando que o comentário em questão fosse apagado. Simplesmente acionou a Justiça, fez com que o blog saísse do ar e ainda requereu uma indenização por danos morais devido a um comentário que, vale a pena citar, havia sido postado por uma pessoa anônima.

Em outubro de 2004, ainda sob o impacto do caso, escrevi o postComentários: tê-los ou não, eis a questão“. Nele, explicava o porquê da adoção, no espaço de comentários deste blog, de um disclaimer redigido pela advogada Suzi Hong, fazendo a seguinte observação:

Todo e qualquer texto publicado na internet através deste sistema não reflete, necessariamente, a opinião deste weblog ou de seu autor. Os comentários publicados através deste sistema são de exclusiva e integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso. O autor deste weblog reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros. Textos de caráter promocional ou inseridos no sistema sem a devida identificação de seu autor (nome completo e endereço válido de e-mail) também poderão ser excluídos“.

Este disclaimer logo tornou-se um dos textos mais reproduzidos em toda a blogosfera. No entanto, ao adotá-lo, eu já sabia que ele seria insuficiente para me proteger de eventuais ações judiciais. Como bem explicou Suzi nos comentários do post referido: “o disclaimer NÃO TEM A PRETENSÃO de eliminar, por completo, o risco de um indivíduo qualquer acionar a justiça (e conseguir êxito no pedido da liminar). Seu propósito é minimizar o risco, servir de argumento a mais em caso de eventual litígio“.

O uso do disclaimer teve ainda a função de evitar que eu tomasse a medida provavelmente mais sensata a ser tomada: limar de vez o espaço dos comentários. Seria a prevenção definitiva a fim de evitar todo o aborrecimento, dores de cabeça e gastos advocatícios amargados pelo meu colega Fernando. No entanto, compensaria perder a interação com os leitores de Pensar Enlouquece, que tantas vezes complementaram, corrigiram, reverberaram e enriqueceram o conteúdo deste blog com seus comentários?

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Alguém pode questionar: não soa absurdo o fato de um blogueiro ser condenado por causa de um comentário anônimo escrito por um internauta qualquer? Bem, o fato é que tive acesso à sentença redigida pela juíza responsável pelo processo, e ela foi bem clara sobre o assunto: “Embora não seja o requerido (o blogueiro Fernando Gouveia) o autor das palavras ofensivas, por certo que, disponibilizando o espaço, tem responsabilidade perante o ofendido“. Em outro trecho, a juíza complementa: “a responsabilidade do requerido se mantém, pois que, ao disponibilizar o espaço para divulgação democrática (termo utilizado na contestação) do conteúdo inserido por terceiros, assume o risco sobre as expressões ofensivas veiculadas“.

Sim, após quase dois anos na Justiça finalmente saiu a sentença em primeira instância do caso Imprensa Marrom. Fernando “Gravatai Merengue” Gouveia foi condenado a pagar indenização no valor correspondente a 10 salários mínimos (ou seja, R$ 3.500,00) ao ofendido. Obviamente os advogados do meu colega entraram com um pedido de recurso. No entanto, esta primeira derrota cria uma jurisprudência pra lá de delicada. No post em que comenta a decisão da Justiça, Fernando faz um alerta a todos os blogueiros: “Se vocês não querem amanhã ou depois passar pelas agruras que estou passando, simplesmente tratem de hospedar seus blogs num país que tenha ordenamento jurídico diferente. Ficando no Brasil, eliminem os comentários“.

Apesar deste blog ser hospedado no exterior, prefiro me precaver de quaisquer dissabores. Optei, pois, por adotar a pré-aprovação de cada comentário antes que ele seja publicado, a fim de evitar a publicação de qualquer ofensa que possa ser feita a terceiros. E recomendo esta medida a qualquer blogueiro que não deseje eliminar de vez seu espaço de comentários, esteja seu blog hospedado no Brasil ou lá fora.

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P.S. 1: Leituras relacionadas: Sentença judicial contra Imprensa Marrom abre perigoso precedente na blogosfera brasileira (Idelber Avelar), Justiça às turras com a Internet (Alex Castro), Na mira da Justiça (Rodney Brocanelli) e Manual de sobrevivência na selva de bits (Túlio Lima Vianna & Cynthia Semíramis Vianna).

P.S. 2: É uma pena ter que publicar um post como este justamente no Blog Day.

P.S. 3: Ainda sobre a blogosfera, vale a pena dar uma conferida na Pesquisa Blogosfera Brasil, realizada por meus camaradas do condomínio virtual Verbeat.

Entre o moderno e o eterno

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 24 de agosto de 2006

Entre o moderno e o eterno

Em seu famoso ensaio sobre a Modernidade, Baudelaire a definiu como sendo o transitório, o efêmero, todos os elementos que sejam condicionados pela época, pela moda, pelas paixões. Mas, para além da volatilidade que lhe é inerente, há também na Modernidade o fascínio fugidio das metamorfoses, dessa tensão constante entre tradição e mudança. O papel do artista estaria, pois, em extrair a beleza misteriosa da fugacidade moderna, a fim de destilar-lhe o que há de eterno.

Ok, mas o que é que as mulheres têm a ver com isso?

Vivemos uma era caótica. O walkman de ontem é o iPod de hoje, que amanhã já estará obsoleto. Pertencemos a gerações precocemente nostálgicas, que têm saudades da Turma do Balão Mágico, TV Pirata e a zebrinha do Fantástico simplesmente porque mal tiveram tempo de assimilar uma época que parece ter terminado precocemente, soterrada em meio a mudanças cada vez mais repentinas. Mas quem está na casa dos trinta anos até que teve sorte. Fico pensando nessa molecada que mal saiu das fraldas e já é condicionada a ter aulas de inglês, informática, japonês, natação e o que mais couber em suas agendas, a fim de se preparar para enfrentar os desafios profissionais nestes fucking times de downsizings e empowerments.

E se essa criança for do sexo feminino, sai de baixo. Haja 24 horas para a mulher que deseja construir uma carreira profissional, ter e criar filhos, controlar o próprio peso, encontrar um cara legal ou, na ausência dele, aprender a trocar pneus, ao mesmo tempo que lava pratos, retoca a maquiagem, cursa uma faculdade e curte a vida por aí. Sexo frágil é o escambau!

É bóbvio que nem todas as mulheres enquadram-se no perfil rascunhadamente traçado no parágrafo acima, vide as neoamélias, popozudas, marias-gasolina, mocinhas com a Síndrome de Cinderela que ainda sonham com o seu príncipe encantado (aquele mesmo que vira sapo logo após gozar) e executivas workaholics que acham que homens são todos iguais e não hesitariam em trocá-los por vibradores que também abram vidros de palmito.

Mas tergiverso, tergiverso. E eu, que sou apenas um rapaz latino-americano, percebo que é impossível definir todas as inquietações, idiossincrasias, trejeitos, nuances e sentimentos presentes no olhar feminino. Porque, diante do sorriso de uma mulher, sou subitamente remetido aos tempos em que eu era um garoto bobão repleto de espinhas e dúvidas existenciais por todos os lados (não que eu tenha melhorado muito desde então; tornei-me apenas um bobão mais experiente). Percebo, então, que neste curso inexorável da vida em que tudo fenece e morre, a eternidade está contida no tempestuoso céu dos olhos de uma mulher que talvez nunca mais reveja, descrita por Baudelaire como “efêmera beldade cujo olhar me fez nascer segunda vez“. Mas como haverei de reencontrá-la, se a perdi em meio ao tumultuado turbilhão das multidões da modernidade?

E cá estamos. Entre o moderno e o eterno, vejo homens e mulheres perambulando por aí, confusos nesta era pós-utopias, de ideologias incertas e instituições fragilizadas. E eu, que facilmente me perco em ruas, corredores, pensamentos e tergiversações, encerro esta discussão divagando sobre Orkut, aparelhos de GPS e outras facilidades pós-modernas que nos permitem vagar menos perdidos por este mundo e reencontrar velhos amigos. Chegará o dia em que os avanços tecnológicos, tão incensados pelos poetas da modernidade, enfim desatarão o nó dos labirintos que separam casais extraviados pelo alarido frenético das ruas?

* * * * *

P.S. 1: Este é um texto que escrevi originalmente para publicação no Kit Básico da Mulher Moderna, blog da minha amiga Renata Maneschy. A bela ilustração é de Guga Schultze.

P.S. 2: O poema de Baudelaire que cito en passant é “A Uma Passante”. Três diferentes versões deste soneto para o português estão disponíveis neste texto de Maria Amelia Ferreira sobre traduções.

P.S. 3: Convite aos meus leitores goianienses: participar do lançamento de Partitura, primeiro livro solo de meu camarada AL-Chaer, poeta, engenheiro civil, professor universitário, colaborador do Spam Zine e pai da Laura (não necessariamente nesta ordem). Partitura será lançado nesta quinta-feira, dia 31, a partir das 20h, no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro (Rua 3, esquina com 9, Centro).

P.S. 4: Acabei de saber da incrível história de plágio envolvendo o blog Querido Leitor, da Rosana Hermann, e um certo colunista chamado Miltinho Cunha, que escreve no jornal O Estado, de Florianópolis. Pois bem: este “jornalista” surrupia há mais de um ano excertos de posts publicados pela Rosana, plagiando-os na maior desfaçatez. Saiba mais sobre este estarrecedor caso de copy-and-paste nas matérias do Comunique-se e Blue Bus, e leia a crônica “Plágio: o que será que será?”, que Rosana Hermann escreveu sobre o assunto, no Blônicas.

Uma tira e cinco post-scriptuns

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 22 de agosto de 2006

Que venga la idea

P.S. 1: A tira acima é do argentino Ricardo Siri, que usa o pseudônimo Liniers para publicar seus trabalhos em veículos como o jornal La Nación. Ele ainda será assunto de um post mais detalhado, a ser escrito quando eu estiver menos enrolado com alguns trabalhos.

P.S. 2: Laura, do blog Caminhar, está organizando uma blogagem coletiva sobre o tema “violência urbana”, a ser realizada nesta terça-feira, dia 22. Todos estão convidados a participar desta iniciativa, seja blogando, comentando ou lendo os posts dos participantes, devidamente relacionados neste link.

P.S. 3: Lamento por quem perdeu o bate-papo sobre blogs e literatura, promovida pela Primavera dos Livros no último sábado aqui em Sampa City. Melhor do que ela, só mesmo a oportunidade de conhecer e/ou reencontrar leitores e colegas, principalmente pela troca de idéias realizada no ambiente mais propício para uma boa prosa descompromissada: ao redor de uma mesa de bar. À guisa de consolo, recomendo os relatos (mais ou menos verídicos) feitos por Lucia Carvalho, Gustavo Jreige, Julio Cesar Corrêa, Idelber Avelar e Luiz Biajoni, além dos comentários feitos por quem estrelou a mesa de debates: Índigo, Ivana Arruda Leite e Rosana Hermann.

P.S. 4: E por falar em mesas de conversa, soube por intermédio da Lucia Malla do surgimento de uma ótima iniciativa na blogosfera lusófona: Roda de Ciência, um ponto de encontro de cientistas, pesquisadores, jornalistas e interessados na área.

P.S. 5:Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a penugem morna que sobe como uma efervescência de sal de frutas“. (Julio Cortázar)

MTV pra quê?

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 18 de agosto de 2006


Nina Simone, My Baby Just Cares For Me – Os estúdios Aardman, mesmos responsáveis por Fuga das Galinhas e os filmes de Wallace & Gromit, também produziram esta animação em stop motion desta canção originalmente composta para um musical hollywoodiano dos anos 30. Nina regravou My Baby Just Cares For Me em um álbum de 1957, mas sua versão tornou-se sucesso pop mesmo em 1987, quando foi utilizada como trilha sonora de um comercial do perfume Chanel No 5, tornando-se o passaporte para que novas gerações conhecessem a arte desta diva cuja voz é um ombro para aninhar corações desabalados.

Nick Drake, River Man – Em 1969 Drake, aos 21 anos de idade, lançou seu primeiro álbum: Five Leaves Left. O disco reúne dez canções que soam etéreas, eternas. Dentre elas, há “River Man”: alguns acordes dedilhados no violão, o belo arranjo de cordas de Harry Robinson e a voz suave de Drake. Por uma dessas injustiças que acontecem constantemente, o álbum não chegou a vender sequer 5 mil cópias. É dolorido saber que Nick Drake morreu de uma overdose do antidepressivo Tryptizol aos 26 anos, com apenas três álbuns gravados, sem ter recebido o merecido reconhecimento por suas gravações. A propósito: não existem registros em filme de Drake, apenas fotografias.

Leonard Cohen, Suzanne – Suzanne era uma mulher casada com um amigo de Cohen. Em uma tarde, Cohen encontrou-se com Suzanne em seu estúdio, e ela lhe serviu um chá com rodelas de laranja. Desse encontro e dessa atração que restringiu-se à esfera platônica (“And you know that she will trust you/ For you’ve touched her perfect body with your mind“) surgiu aquele que viria a se tornar o primeiro dentre tantos clássicos interpretados por este escritor, poeta e cantor canadense. O clipe integra um vídeo de 24 minutos intitulado I Am a Hotel, que Cohen criou junto com Mark Shekter, reunindo quatro outras canções deste músico de voz melancólica e gutural

Marvin Gaye & Tammi Terrell, Ain’t No Mountain High Enough – É uma pena que a carreira desta que foi a mais mesmerizante dupla do soul tenha durado tão pouco. Durante um show da turnê do primeiro álbum da dupla Gaye & Terrell (United, de 1967), ela desmaiou nos braços de Gaye. Causa: tumor no cérebro. Ela jamais recuperaria plenamente a saúde, assim como nunca mais se apresentou ao vivo depois desse incidente. Especula-se que a doença que vitimaria Tammi tenha sido causada pelos sopapos que levou de James Brown (de quem foi backing vocal), David Ruffin dos Temptations (de quem também apanhou) e o boxeador Ernie Terrell (seu ex-marido). Tammi passou por oito cirurgias de cérebro antes de falecer em 16 de março de 1970, aos 24 anos. A morte de sua parceira fez com que Marvin mergulhasse em uma profunda crise depressiva, ficando afastando dos estúdios por mais de um ano. Seu catártico retorno à música viria com a gravação de sua obra-prima: o álbum What’s Going On de 1971.

Nancy Sinatra, These Boots Are Made for Walking – Este vídeo de atmosfera swinging London é um deleite para fetichistas. Pudera: o que dizer deste protoclipe que apresenta várias mulheres exibindo suas longas pernas, trajando apenas sueters, meias-calças e botas? These Boots Are Made for Walking, maior sucesso da carreira de Nancy, filha de Frank Sinatra, foi originalmente gravado em 1966. Uma adaptação de sua letra viria a se tornar trilha sonora das tropas norte-americanas na Guerra do Vietnã, que a cantavam enquanto marchavam. Nancy, que posou para a Playboy em 1995 (aos 54 anos de idade), mantém até hoje sua carreira musical, lançando singles de sucesso como “Shot You Down” (com o grupo eletrônico Audio Bullys) e “Let Me Kiss You” (composta por seu fã Morrissey).

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P.S. 1: Mais vídeos da série “MTV pra quê?” estão disponíveis em minha página no Multiply.
P.S. 2: Eis a minha nova colaboração para o Cracatoa Simplesmente Sumiu: Vidas Possíveis, texto com ilustração de Guga Schultze.

Dois convites

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 15 de agosto de 2006

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Nesta quarta-feira, dia 16 de agosto, Ana Maria Gonçalves autografa Um Defeito de Cor a partir das 18:30 na Livraria da Vila. Com a palavra, Millôr Fernandes ao recomendar a leitura do livro de Ana Maria: “Desmintam-me, por favor. É um dos livros mais importantes, coloco entre os melhores que li em nossa bela língua eslava. Entre os 100 melhores, Millôr? Que exagero é esse, rapaz?, entre os 10. TE CUIDA, SARAMAGO!“.

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Sábado, dia 19, a Primavera dos Livros de São Paulo promoverá uma mesa de debates intitulada “Blog e Literatura, Blog é Literatura?”. Com moderação de Marcelo Duarte, o debate contará com as participações de Ivana Arruda Leite, Índigo, Rosana Hermann e Bruna Surfistinha. O local: Centro Cultural São Paulo, a partir das 17 horas. Dica extra: conferir o stand da Editora Barracuda e adquirir os excelentes livros de seu catálogo com descontos de até 40%!

Ema, ema, ema

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 15 de agosto de 2006

Anomia é um conceito sociológico utilizado para descrever um estado de coisas no qual o comportamento dos membros de uma sociedade deixa de ser pautado pelas normas sociais. Ou seja: as pessoas deixam de ligar para as possíveis punições decorrentes da infração das leis simplesmente porque já não crêem, ou já nem ligam, para o fato de estarem quebrando as regras do contrato social.

Que outra palavra, pois, pode ser utilizada para descrever com maior propriedade fatos como o recente incidente envolvendo Guilherme Portonova? Vejam só: o PCC ordenou o seqüestro de um jornalista da Globo com o intuito de defender seus interesses. A emissora, por sua vez, viu-se na situação de atender às exigências de um grupo criminoso a fim de tentar salvar a vida de seu funcionário. E as autoridades, onde estavam nessa história toda? Enquanto PCC e Rede Globo negociaram diretamente a exibição de um manifesto na TV produzido por um grupo composto por assaltantes, homicidas e traficantes, onde estava o Governo para garantir a lei e a punição aos responsáveis por essa ação? Caso a Globo não tivesse cedido espaço em sua programação para dar voz aos bandidos, que garantia as autoridades poderiam dar sobre a vida de Guilherme Portonova?

Ema, ema, ema, cada um com seus pobrema“. Metroviários entram em greve, grupos de sem-terra invadem o Congresso Nacional, criminosos ganham espaço na maior emissora nacional porque as autoridades legitimamente constituídas são incapazes de prover segurança à sociedade que os elegeu. Enquanto o governo federal e o governo estadual discutem para saber a quem pertence a maior parcela de culpa pelos acontecimentos recentes, vivemos dias nos quais jornalistas serão obrigados a esconder suas identidades, sob pena de correrem os mesmos riscos que policiais e agentes penitenciários amargaram durante os primeiros ataques generalizados do PCC. Até porque o perigosíssimo precedente já foi criado: quem impedirá o seqüestro de um repórter caso alguma organização criminosa deseje divulgar algum vídeo em rede nacional? Medellín é aqui.

É terrível constatar que, a grosso modo, a recente ação do PCC nada mais foi do que um ato visando a defesa dos seus, hmm, direitos. Porque o fato é que o PCC acabou por se tornar uma espécie de sindicato congregando membros marginalizados da sociedade que, unidos, ganharam mais forças para cobrar o que eles acham que merecem receber. Diante da inapetência e da debilidade do Estado, como impedir que esta união de criminosos recorra a qualquer ato que julgar eficaz para lutar por suas causas (seja ele o assassinato de inocentes, o ataque a ônibus ou bancos, o seqüestro de jornalistas ou qualquer ação que tenha impacto midiático)?

Estes são tempos de barafunda generalizada, nos quais cada segmento da sociedade briga por seus próprios interesses corporativos, deixando de ligar para as conseqüências causadas pelo restante da população. Mas enfim, o que uma sociedade repleta de cidadãos que querem levar vantagem em tudo, jogam lixo nas ruas, sonegam impostos e preferem anular seus votos e omitirem-se da tarefa de pesquisar cuidadosamente seus candidatos e elegerem candidatos decentes (escorados na generalização imbecilizante de que “nenhum político presta”) pode exigir?

Estes são tempos de “ema, ema, ema”. Não é de se admirar, pois, o fato de que estamos todos cada vez mais idos, idos, idos.

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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