Ema, ema, ema

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 15 de agosto de 2006

Anomia é um conceito sociológico utilizado para descrever um estado de coisas no qual o comportamento dos membros de uma sociedade deixa de ser pautado pelas normas sociais. Ou seja: as pessoas deixam de ligar para as possíveis punições decorrentes da infração das leis simplesmente porque já não crêem, ou já nem ligam, para o fato de estarem quebrando as regras do contrato social.

Que outra palavra, pois, pode ser utilizada para descrever com maior propriedade fatos como o recente incidente envolvendo Guilherme Portonova? Vejam só: o PCC ordenou o seqüestro de um jornalista da Globo com o intuito de defender seus interesses. A emissora, por sua vez, viu-se na situação de atender às exigências de um grupo criminoso a fim de tentar salvar a vida de seu funcionário. E as autoridades, onde estavam nessa história toda? Enquanto PCC e Rede Globo negociaram diretamente a exibição de um manifesto na TV produzido por um grupo composto por assaltantes, homicidas e traficantes, onde estava o Governo para garantir a lei e a punição aos responsáveis por essa ação? Caso a Globo não tivesse cedido espaço em sua programação para dar voz aos bandidos, que garantia as autoridades poderiam dar sobre a vida de Guilherme Portonova?

Ema, ema, ema, cada um com seus pobrema“. Metroviários entram em greve, grupos de sem-terra invadem o Congresso Nacional, criminosos ganham espaço na maior emissora nacional porque as autoridades legitimamente constituídas são incapazes de prover segurança à sociedade que os elegeu. Enquanto o governo federal e o governo estadual discutem para saber a quem pertence a maior parcela de culpa pelos acontecimentos recentes, vivemos dias nos quais jornalistas serão obrigados a esconder suas identidades, sob pena de correrem os mesmos riscos que policiais e agentes penitenciários amargaram durante os primeiros ataques generalizados do PCC. Até porque o perigosíssimo precedente já foi criado: quem impedirá o seqüestro de um repórter caso alguma organização criminosa deseje divulgar algum vídeo em rede nacional? Medellín é aqui.

É terrível constatar que, a grosso modo, a recente ação do PCC nada mais foi do que um ato visando a defesa dos seus, hmm, direitos. Porque o fato é que o PCC acabou por se tornar uma espécie de sindicato congregando membros marginalizados da sociedade que, unidos, ganharam mais forças para cobrar o que eles acham que merecem receber. Diante da inapetência e da debilidade do Estado, como impedir que esta união de criminosos recorra a qualquer ato que julgar eficaz para lutar por suas causas (seja ele o assassinato de inocentes, o ataque a ônibus ou bancos, o seqüestro de jornalistas ou qualquer ação que tenha impacto midiático)?

Estes são tempos de barafunda generalizada, nos quais cada segmento da sociedade briga por seus próprios interesses corporativos, deixando de ligar para as conseqüências causadas pelo restante da população. Mas enfim, o que uma sociedade repleta de cidadãos que querem levar vantagem em tudo, jogam lixo nas ruas, sonegam impostos e preferem anular seus votos e omitirem-se da tarefa de pesquisar cuidadosamente seus candidatos e elegerem candidatos decentes (escorados na generalização imbecilizante de que “nenhum político presta”) pode exigir?

Estes são tempos de “ema, ema, ema”. Não é de se admirar, pois, o fato de que estamos todos cada vez mais idos, idos, idos.

Geração Alt + Tab

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 11 de agosto de 2006

Eu, que possuo a mania de navegar pela Web abrindo diversas janelas e abas simultaneamente, encontrei na expressão “Geração Alt + Tab”, cunhada pelo professor da UFBA Nelson Pretto, a melhor definição para pessoas que encontraram na cultura digital o ambiente propício para saciar a sede por informações (que abrangem um leque que vai desde o download de músicas raras de Nelson Cavaquinho até a busca pelo histórico dos candidatos em que votei nas últimas eleições), processando múltiplas coisas ao mesmo tempo, em uma alusão ao hábito difundido por pessoas que usam as teclas Alt e Tab para navegarem pelas inúmeras janelas abertas de seus computadores.

Ao ler a interessantíssima entrevista que Pretto concedeu a Lia Ribeiro Dias para a revista eletrônica A Rede, lembrei de uma matéria de capa que a revista Time publicou em março deste ano, sobre o que eles denominaram de “Multitasking Generation”. O mote da reportagem é um estudo que vem sendo feito há quatro anos por antropólogos da Universidade da Califórnia com 32 famílias de Los Angeles, sobre o impacto que as novas tecnologias vem causando na sociedade. A matéria cita em específico o caso da família Cox e de seus dois filhos, os gêmeos Piers e Bronte, ambos com 14 anos de idade.

Multitasking Generation.Piers termina sua lição de Inglês no Word, ao mesmo tempo que busca no Google Images fotos de Keira Knightley, ouve no ITunes músicas do Queen e AC/DC e mantém diversos papos simultaneamente em seu Messenger com amigos que fez no MySpace. Enquanto isso sua irmã gêmea Bronte, que possui hábitos similares, explica seu modo “multitarefa” de ser: “Meus pais sempre me dizem que eu não posso fazer minha lição de casa enquanto ouço música, mas o que eles não compreendem é que ela ajuda a me concentrar“. Eu, que sempre escrevo ouvindo arquivos mp3 randomicamente no Winamp, poderia ter proferido essa declaração, embora faça a ressalva de que nem sempre música é sinônimo de concentração (que o digam minhas sessões de air drum ao som de Nirvana e Teenage Fanclub).

O fato é que desde criança nutro o hábito de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Faço minhas refeições enquanto assisto TV, folheio o jornal com o Ipod ligado, mando um SMS em meio à elaboração deste post, leio diversos livros simultaneamente. E o fato é que nessa fome de abarcar diversas tarefas ao mesmo tempo, reconheço que nem sempre meu desempenho é o ideal. Tenho a consciência de que se me dedicasse a uma coisa de cada vez provavelmente administraria melhor meu tempo pessoal, terminando os textos que redijo com maior rapidez, mastigando em vez de simplesmente engolir minhas refeições, finalizando os muitos romances que deixei inacabados, olhando com desamparo a Torre de Pisa formada pelos e-mails acumulados para responder.

Eu, que certamente desenvolvi um quê de DDA ao longo dos anos, preciso aprender a driblar as armadilhas fragmentadas da pós-modernidade. Retomo um texto antigo para reiterar o que penso sobre o assunto: que cada um reserve uma porção generosa do dia para dar a si mesmo tempo para contemplar a lua, o sol, as estrelas, o mar, os sorrisos extraviados na multidão que se atropela a si mesma na digestão precoce do cotidiano.

* * * * *

P.S. 1: Dois, da Legião Urbana, foi lançado há vinte anos. Como parte do especial promovido pelo Digestivo Cultural, escrevi o artigo “Entre o tempo que passou e todo o tempo do mundo“.

P.S. 2: Marcelo Costa, que edita o excelente site de cultura pop Scream & Yell, acaba de estrear sua coluna semanal no portal iG. Recomendo fortemente, pois, uma visita a Revoluttion, sua nova empreitada virtual. Em sua coluna de estréia, uma pergunta: qual o seu disco preferido dos Beatles? Titubeio em escolher entre Revolver e Sgt. Pepper.

P.S. 3: Blogueiro, esteja em dia com seus deveres cívicos. Aliste-se na Blogosfera, lista de discussões recentemente criada por Fabio Seixas, e não deixe de inscrever sua página no Blogblogs, excelente diretório brasileiro.

P.S. 4: Você perdeu a série de entrevistas que o Jornal Nacional fez com os principais candidatos à Presidência? Pois bem, graças ao YouTube e ao blog Tevê Aberta, você pode conferir com um mero clique as sabatinas que William Bonner e Fátima Bernardes fizeram com Cristovam Buarque, Geraldo Alckmin, Lula e Heloísa Helena.

P.S. 5: Trilha sonora deste post: “Nada Tanto Assim“, Kid Abelha (dos versos “Eu sei de quase tudo um pouco/ E quase tudo mal/ Eu tenho pressa/ E tanta coisa me interessa/ Mas nada tanto assim“).

Dez aberturas marcantes de novelas

Por Alexandre Inagakidomingo, 06 de agosto de 2006

Brilhante – Sua bela abertura exibe uma modelo e um gato sendo refletidos ad infinitum por um cenário de espelhos. Contudo, inesquecível mesmo é o seu tema musical, feito por encomenda por ninguém menos que Antônio Carlos Jobim: “Luiza”, canção cujo título ganhou o mesmo nome da personagem principal da novela, interpretada por Vera Fischer. Eu, que na época ainda conhecia pouco de bossa nova, tomei conhecimento da obra de mestre Tom graças a esta novela de Gilberto Braga, exibida de setembro de 81 a março de 82. Mas confesso que “Luiza” ainda é a minha música predileta do maestro, com sua precisa combinação entre letra e melodia. Continue Lendo

Blogo, logo existo

Por Alexandre Inagakisábado, 29 de julho de 2006

Enquanto dicionários como o Aurélio e o Houaiss perdem terreno para a Wikipedia por não terem criado ainda um verbete para a palavra, deixo aqui minha definição: blog é um site regularmente atualizado, cujos posts (entradas compostas por textos, fotos, ilustrações, links) são armazenados em ordem cronologicamente inversa, com as atualizações mais recentes no topo da página. Criados com o auxílio de ferramentas de publicação como Blogger e Movable Type, blogs são páginas dinâmicas e democráticas – qualquer internauta razoavelmente alfabetizado é capaz de criar o seu. Podem ser espaço para observações do cotidiano, mural de recados, laboratório de experimentações literárias, depósito de links curiosos, relicário de agruras sentimentais, diário de viagem ou tudo isso ao mesmo tempo agora.

Tamanha facilidade de publicação não passa impune: segundo o Technorati, há cerca de 49,9 milhões de blogs. É de se pensar: quem lê tanta gente? Há quem diga que blogs são como escritos dentro de garrafas jogadas no mar, que bóiam pela Web em busca de poucos e raros destinatários; não é bem assim. Graças à comunicação feita por links e comentários deixados em outros blogs, estas garrafas virtuais coligam-se em comunidades, amealhando leitores de modo similar ao fenômeno boca-a-boca que transforma filmes obscuros em sucessos cult.

Quem escreve em um blog em geral o faz com uma linguagem informal, descompromissada, não raro pontuada por erros de grafia que denunciam a urgência com que o internauta escreve seu texto, como rascunhos que já nascem com caráter definitivo. Do comando do cérebro ao ato dos dedos digitando no teclado, palavras borbotam e – click! – desembocam direto para a tela.

Na Internet, prevalece a cultura do imediato: teias de aranha virtuais cobrem um site se este não é atualizado pelo enorme intervalo de… um dia. Repare: toda vez que um novo texto é publicado, os anteriores deixam de receber novos comentários. Na blogosfera, mais do que nunca prevalece a cultura do imediato: o post está morto, viva o novo post! Em nome da velocidade no carregamento do site, não mais do que dez artigos são publicados na página inicial, enquanto os anteriores são empurrados para o quartinho dos fundos. Pergunto: quantos gatos pingados possuem o hábito recorrente de vasculhar os arquivos de um blog?

Em precisa analogia, o escritor goiano Nelson Moraes compara os blogs a palimpsestos – “pergaminhos de couro utilizados por monges da Idade Média para registrar textos e gravuras, que de tempos em tempos eram lavados a fim de remover a tinta e gravar novos manuscritos que iam sendo sobrepostos aos anteriores”. Ao contrário dos textos impressos, transportáveis para qualquer local e lidos a qualquer hora, o prazo de validade de um post é o tempo de exposição na homepage. Depois, torna-se jornal virtual a embrulhar peixes cibernéticos precocemente envelhecidos, folheados por uma massa restrita de leitores.

Em meio a tanta fugacidade, há no entanto aqueles que usam os blogs como escoadouro de toda uma produção literária represada. O que antes jazia em fundos de gaveta agora é compartilhado com um clique de mouse. É óbvio que toda essa facilidade de publicação possui dois gumes – há na Web muita literatice constrangedoramente capenga, assim como é possível garimpar autores preciosos que recorrem à interface do blog da mesma maneira que outras gerações criavam fanzines xerocados a fim de divulgar seus escritos.

O blogueiro entra nessa história como um daqueles comediantes novatos que sobem em um palco tal qual na stand-up comedy notabilizada por nomes como Jerry Seinfeld. Despido de cenografia, dá a cara pra bater: ao narrar “causos” autobiográficos ou piadas de próprio punho, arrisca-se a receber apupos ou a indiferença de sua platéia, traduzida pela ausência de comentários ou pela estagnação das estatísticas de seu contador de acessos. Em contrapartida, há aqueles que graças aos blogs tornaram seus nomes conhecidos e foram acolhidos pelo mercado editorial brasileiro, como João Paulo Cuenca, Daniela Abade e Clarah Averbuck.

É preciso falar ainda da crescente influência da blogosfera como meio livre de circulação de informações, tornando-se uma espécie de ombudsman coletivo da grande imprensa em geral. É inevitável citar o caso da demissão do âncora da rede de TV CBS Dan Rather, que coordenou a produção de uma reportagem sobre o passado militar de George W. Bush baseada em documentos falsos, em denúncia feita pelo blog Power Line. Em países sob regimes ditatoriais, como Irã, China e Coréia do Norte, a blogosfera ganha mais relevância ainda, tornando-se preciosa fonte alternativa de informação – representativa a ponto de sofrer severas repressões. Sites como Civiblog e Committee to Protect Bloggers surgiram com o objetivo de denunciar os casos de blogueiros presos simplesmente por veicularem notícias e idéias incômodas a certos governos. É o caso do Irã, nação que mandou para a cadeia diversos blogueiros nos últimos anos, e que ainda mantém sob detenção Mohamad Reza Nasab Abdolahi e Motjaba Saminejad.

No entanto, apesar da severa repressão, o processo de popularidade dos blogs entre os jovens iranianos (existem mais de 60 mil blogs em farsi, o dialeto persa) parece ser irrefreável, especialmente entre as mulheres, que vêem neles uma oportunidade rara de externar suas idéias e sentimentos. Outro aspecto importante: a fim de estabelecer contato com o mundo, muitos iranianos optam por escrever em inglês (vide este diretório), oferecendo a internautas de outros países a oportunidade de conhecer aspectos do cotidiano de um país no qual jovens correm o risco de serem presos por irem a uma festa ou caminhar ao lado de um amigo do sexo oposto.

Ao final deste artigo, não posso deixar de reiterar aqueles que, a meu ver, são os aspectos mais positivos de um blog: o fomento de debates em tempo real, o estímulo à comunicação de idéias, a democratização da publicação de conteúdo na Web e, principalmente, a liberdade de expressão.

* * * * *

P.S. 1: Republiquei este texto, anteriormente veiculado no Correio Braziliense e no Digestivo Cultural, como uma espécie de boas-vindas a todos que conheceram este blog graças à matéria de capa da revista Época desta semana, conduzida por Ricardo Amorim e Eduardo Vieira. A aqueles que imaginavam que blogs não passavam de diarinhos virtuais, ou sequer sabiam o significado da palavra, fica aqui o conselho para que naveguem pelos links da coluna à direita e percam-se por aí. Internet é muito mais do que um meio de veiculação de piadas velhas por e-mails.

P.S. 2: O site da Época publicou uma compilação de links de minha autoria. Inspirado em um site português que, infelizmente, parece estar fora do ar, os 25 momentos da blogosfera brasileira (que, como o navegante atento perceberá, são mais do que vinte e cinco) fazem parte de um trabalho inacabado que deveria ter sido publicado em formato wiki, com a colaboração ativa daqueles que têm feito a história da blogosfera tupiniquim (é um projeto a ser retomado junto com diversas coisas que pretendo fazer até o final deste ano). Pena que, ao menos até o momento em que entrei na página pela última vez, ela estava repleta de hyperlinks errados. Torço para que sejam brevemente consertados.

P.S. 3: Ao ver minha foto na matéria, fiz a inevitável constatação: não nasci para ser top fodel. Pretexto para uso de minha interjeição predileta: nhé!

Salve Ferris!

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 25 de julho de 2006

Ferris Bueller é o cara que todo adolescente gostaria de ser: esperto, popular, de bem com a vida e com uma namorada linda. Cameron Frye, seu melhor amigo, é o rapaz problemático que personifica um lado que todo mundo também já teve: um jovem em conflito com os pais, travado entre a angústia sobre o futuro e as dúvidas existenciais que pipocam na alma feito espinhas na cara. Já Sloane Peterson é a namorada dos sonhos, uma garota cool e comparsa de qualquer aventura que fosse proposta, cuja beleza é admirada (e invejada) por todas as amigas.

Ferris, Cameron e Sloane no Art Institute of Chicago

Não é difícil entender o porquê de uma reprise de Curtindo a Vida Adoidado na TV representar um apelo irresistível para que a gente se ajeite no sofá e curta 102 minutos de diversão descompromissada. Este filme, dirigido e roteirizado por John Hughes em 1986, é o retrato de uma geração sem utopias que simplesmente aspira por uma vida que fuja à rotina besta do dia-a-dia. Facilmente digerível, feito as melhores canções pop, Ferris Bueller’s Day Off (título original do filme que, em Portugal, ganhou o nome de O Rei dos Gazeteiros) dá voz a toda uma geração em uma seqüência na qual Matthew Broderick fala diretamente para a câmera. Continue Lendo

Escrevendo com luz

Por Alexandre Inagakidomingo, 23 de julho de 2006

Ghosts in the Park

Houve época em que se acreditava que a fotografia não passava de uma mera reprodução da realidade, e que, por conta disso, não teria valor criativo ou artístico. Ledo e ingênuo engano: muito mais do que simplesmente espelhar a natureza, os artistas da câmera possuem a capacidade de captar uma determinada imagem em uma específica fração de tempo e fazer com que ela transcenda os limites da moldura, preenchendo a escrita da luz com entrelinhas que não se esgotam em um mero clique.

Um bom exemplo é o da foto acima, tirada de um parque de diversões abandonado no Japão. Para além do mero registro visual, fiquei mesmerizado com a capacidade que uma “simples” foto possui de fazer com que mergulhemos em uma dimensão perdida, na qual quase podem se vislumbrar espectros circulando pelos trilhos enferrujados de uma montanha-russa mergulhada em névoas e reminiscências desencontradas.

São Paulo por Daniela Bracchi

Angulações diferentes, senso de observação, técnica no uso de filtros e lentes, manipulação digital. Um fotógrafo, mais do que fazer o mero registro da realidade, é capaz de recriar as imagens à sua frente, descolando-se das limitações do real a fim de mergulhar em um território muito mais instigante. É o que faz, por exemplo, a soteropolitana Daniela Bracchi, que na foto acima extrai da paisagem cinzenta de São Paulo cores que passam desapercebidas pelos desatentos à poesia escamoteada entre viadutos e pichações.

Ojos

E no entanto, a poesia não necessariamente reside em fotografias profissionais. Registros congelados de tempo, as imagens encontradas em álbuns de família encapsulam momentos que resistem, teimosos, ao oblívio do passado. Fotos Encontradas é um site fascinante com fotos resgatadas nas calles de Buenos Aires, seja em sacos de lixo ou calçadas. Sem quaisquer referências a respeito de seus personagens, cada fotografia veiculada no site é um ponto de reticências acerca do seu destino. Teria sido rasgada, queimada ou jogada no lixo por trazer lembranças dolorosas ou simplesmente porque estava fora de foco? Que histórias se ocultam por detrás do sorriso amarfanhado de um casal de imigrantes em preto e branco, ou na expressão melancólica de uma mulher sentada ao lado de alguém cuja cabeça foi meticulosamente recortada?

As grandes fotografias possuem uma origem em comum: a felicidade do obturador ter sido pressionado no momento fugaz em que Deus foi flagrado em um sorriso distraído.

(texto originalmente publicado em 15/06/05)

Retorno em grande estilo

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 18 de julho de 2006

Super-Homem flagrado durante sua ronda diária pelo planeta.

Superman – O Retorno é uma obra que respeita o legado dos quadrinhos e dos dois primeiros (e excelentes) filmes da série, dirigidos por Richard Donner. Desde os créditos iniciais, ao melhor estilo dos anos 70 e com uso magistral do tema musical composto por John Williams, até as inúmeras citações (por exemplo, uma cena que reproduz a primeira aparição do Super-Homem, na capa da revista Action Comics) e a boa atuação de Brandon Routh, que é praticamente uma reencarnação de Christopher Reeve, com direito à clássica ajeitadinha nos óculos de Clark Kent. Ao mesmo tempo, é uma adaptação que surpreende pela ousadia com que apresenta uma hipótese jamais trabalhada a sério pelos quadrinhos da DC: Lois Lane noiva e com um filho.

Não posso dizer que Superman – O Retorno supera os dois filmes de Richard Donner. Mas é um belo trabalho de Bryan Singer, que honra o currículo do cineasta de Os Suspeitos, X-Men e X-Men II, confrontando o personagem criado por Joe Shuster e Jerry Siegel com novos dilemas entre seus deveres e responsabilidades de super-herói e os sentimentos que nutre por Lois Lane. Kevin Spacey cumpre as expectativas ao personificar um Lex Luthor falastrão, ao mesmo tempo ameaçador e divertido. Parker Posey, no papel de Kitty Kowalski, a namorada do vilão, rouba cenas ao ser responsável pelos momentos mais engraçados do filme. Embora considere que Kate Bosworth não possua o physique du rôle ideal para interpretar Lois Lane (a personagem pedia por uma intérprete mais velha e, hmm, carismática), sua atuação é correta. Quanto a Routh, ao longo do filme ele prova que o mesmo Bryan Singer que já havia surpreendido fãs ao escalar um outrora desconhecido Hugh Jackman para interpretar Wolverine fez outra aposta acertada.

Colegas que também assistiram ao filme, como Rafael Galvão e Luiz Biajoni, criticam a unidimensionalidade e até mesmo o “bom-mocismo” do personagem. Mas, oras, o que esperar de um super-herói que desde a sua criação representa o arquétipo da justiça e da bondade? A citação que o filme faz do deus grego Prometeu não foi inserida à toa. Porque Kal-El não é gente como a gente, e sim uma espécie de semideus “condenado” à missão de velar constantemente pela humanidade pra lá de imperfeita que habita este planeta. E se o personagem aparenta ser correto demais, resvalando nos limites da chatice, o “erro” está menos em suas atitudes do que nos padrões morais de uma sociedade que se entretém mais com heróis homicidas como Lobo e Wolverine, ama odiar vilões como Bia Falcão (que saiu impune ao final da telenovela de Sílvio de Abreu sem que ninguém visse algo de errado isso) e exercita seu voyuerismo ao acompanhar como se fosse reality show casos como o julgamento de Suzane von Richthofen.

E, embora a maior parte das resenhas tenham destacado a impactante seqüência em que o Super-Homem evita um desastre aéreo, a mais marcante do filme, ao menos para mim, é a penúltima. Nela, o sobrevivente de Krypton deixa por alguns instantes sua faceta de protetor da humanidade a fim de tratar de sua vida pessoal, dando ao Homem de Aço um desfecho que remonta ao conceito, popularizado por Joseph Campbell, de que a jornada de todo herói passa necessariamente por alguma espécie de sacrifício pessoal. Tão difícil quanto descrever esta seqüência sem cometer spoilers é não se comover com as palavras proferidas pelo personagem de Routh durante a cena.

* * * * *

P.S. 1: Bianca Kleinpaul, em seu texto Memória afetiva do Superman, disponibiliza um precioso vídeo para a seqüência mais marcante do primeiro filme da série: o momento em que o kryptoniano descobre que Lois Lane morreu soterrada e, desesperado, voa diversas vezes em torno da Terra na direção inversa à sua rotação, cada vez mais rapidamente, até fazer com que o planeta gire em sentido contrário, retrocedendo no tempo. Retomando o que escrevi dois parágrafos acima, uma explicação para que justamente essa seqüência tenha marcado as lembranças de tanta gente talvez seja o fato de que nela o Homem de Aço abandona sua aura de escoteiro e age por impulso, deixando-se levar pelas emoções, em uma atitude demasiadamente “super-humana”. Para fazer o download desta cena, que inspirou Gilberto Gil a compor Super-Homem – a Canção, clique aqui com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar destino como”.

P.S. 2: Post relacionado: A diferença entre Super-Homem e Clark Kent.

P.S. 3: Confira os trailers dos três filmes mais aguardados (ao menos por mim) do ano: The Science of Sleep, de mestre Michel “Brilho Eterno” Gondry, The Prestige, de Christopher Nolan (além de um elenco que conta com nomes como Christian Bale, Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Michael Caine e David Bowie, todos os textos que comentam o livro que deu origem ao filme, escrito por Christopher Priest, destacam que o final é não menos que sensacional), e Lady in the Water, de M. Night Shyamalan, diretor de dois dos mais impressionantes filmes que vi nos últimos dez anos, A Vila e O Sexto Sentido.

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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