Festa da democracia?

Por Alexandre Inagakiquarta-feira, 01 de novembro de 2006

Se eleições são a “festa da democracia”, devo dizer que me senti como um daqueles caras que acabaram de levar um fora da namorada e passam o baile inteiro se embebedando na esperança de anestesiar o nó na garganta da alma.

Não que eu não tenha gostado dos resultados. Até porque esta foi a primeira vez, desde 1989 (quando fui de Covas no primeiro turno e Lula no segundo), que votei em um candidato que venceu as eleições presidenciais. Mas foi uma vitória com um certo (dis)sabor de decepção, pela constatação de que esta foi uma campanha medíocre, que serviu para disseminar acusações passionalmente injustas de ambos os lados. Consegui a façanha, aliás, de bater boca tanto com amigos tucanos quanto petistas. Enquanto os peessedebistas quase chegaram ao ponto de dizer que eu havia me tornado cúmplice dos mensaleiros ao declarar voto em Lula devido aos inegáveis avanços nos campos da educação e distribuição de renda, citando ainda o Prouni, Luz para Todos e o programa da Bioenergia como excelentes projetos tocados por este governo, tive amigos petistas que quase tiveram uma síncope só porque elogiei o governo FHC pela criação da Lei de Responsabilidade Fiscal e pela implantação de um plano econômico que finalmente acabou com a inflação.

Triste do país cujos debates políticos são tomados por uma visão maniqueísta. Por conta disso, torna-se quase utópica a esperança de ver os melhores quadros públicos, independentemente de filiações partidárias, unidos em prol do desenvolvimento deste país, à semelhança de iniciativas como a “Concertación Política” no Chile (citada recentemente pelo Ministro Tarso Genro) ou o histórico Pacto de Moncloa, que congregou em uma mesma mesa presidentes de todos os partidos da Espanha após o fim da ditadura de Franco, e que permitiu à nação européia fomentar seu crescimento e desenvolvimento deixando divergências ideológicas de lado.

Um exemplo sintomático de como os marqueteiros difundiram estereótipos imbecilizantes são as respostas recebidas por Rodrigo Alvares, do blog coletivo A Nova Corja, a uma mesma pergunta feita a militantes do PT e do PSDB.

Para o petista: “Hã, oi. Tu sabe que não pode agitar bandeira tão perto da zona eleitoral, né?”

Petista: “Que o quê. Some da minha frente, ô privatista”.

Atravesso a rua.

Para a tucana: “Hã, oi. Tu sabe que não pode agitar bandeira tão perto da zona eleitoral, né?”

Tucana: “Por que tu não vai reclamar para o Lula, seu mensaleiro de merda?”

Neste cenário, em que proliferaram adesivos com dizeres estúpidos como “o bem sempre vence o mal”, não é de se admirar que eu tenha encontrado gente lamentando a reeleição com termos como “o Brasil não vai agüentar mais quatro anos de Lula” ou, pior, “bem feito, esse povo agora vai tomar na cabeça” (frases verídicas que tive de aturar na última segunda-feira). Por que ainda me espanto com essa torcida do contra, neste clima futebolístico que incitou rivalidades gratuitas e fez com que pessoas usassem termos pejorativos como “petralhas” e “tucanalhas”?

Eu, que já fui chamado de “massa de manobra da direita” e “petista factóide” em diferentes momentos destas eleições, lamento por crer que o Brasil só deixará de ser este eterno país do futuro que nunca chega no dia em que as melhores cabeças desta nação, sejam elas tucanas, petistas, pefelistas, psolistas ou anarquistas, firmarem um pacto em torno do desenvolvimento nacional. Mas é mais provável que este sonho deva ter surgido no meio do sono após o porre que tomei durante a festa dos intolerantes.

* * * * * *

Mudando ligeiramente de assunto, gostaria de fazer um agradecimento público a alguns blogueiros que, não satisfeitos em votarem em Pensar Enlouquece na categoria Melhor Weblog em Português no The BOBs, ainda conclamaram seus leitores a fazerem o mesmo. Meu muito obrigado, pois, a Edney Souza (InterNey), Luciana Naomi (Pensamentos de uma Batata Transgênica), André Julião (Um baiano em Campinas), Susan (De Cara pra Lua), Marcos Donizetti (Me, Myself and I), Idelber Avelar (O Biscoito Fino e a Massa) e Bia Kunze (Garota Sem Fio).

80 clipes brasileiros dos anos 80 (parte 1 de 8)

Por Alexandre Inagakidomingo, 29 de outubro de 2006

Ritchie – “A Mulher Invisível” – Depois de ter vendido mais de 1 milhão de cópias de Vôo de Coração (1983), seu álbum de estréia, o inglês radicado no Brasil Richard Court partiu para a gravação do segundo disco cercado de grandes expectativas. E foi assim que, em 1984, a gravadora CBS lançou … E a Vida Continua, com direito a um generoso orçamento para a filmagem do videoclipe da música de trabalho, “A Mulher Invisível”. Em entrevista concedida a Ricardo Alexandre para o livro Dias de Luta, Ritchie narra a saga deste clipe: “Gastamos uma fortuna para rodar em 35 milímetros, com uma equipe enorme, cenários, diretor de arte, extras. Ao todo, gastamos US$ 42 mil. Tudo para o Fantástico falar: ‘Não segue o padrão Globo, não vamos passar’“. Em tempos pré-MTV e pré-YouTube, um cantor não ter seu videoclipe exibido no Fantástico era sinônimo de desastre. De fato, seu segundo álbum não obteve nem um quinto das vendagens do primeiro, e o LP seguinte, Circular (1985), seria o último de Ritchie com a gravadora CBS. Continue Lendo

Rogério Duprat (1932 – 2006)

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 27 de outubro de 2006

Mestre Rogério Duprat abarcando o tempo em Londres, 1969.

Quando fiz, em março de 2004, uma lista dos 10 melhores discos de música popular brasileira de todos os tempos, citei o nome do maestro Rogério Duprat, falecido na noite de ontem, nos textos que escrevi sobre aqueles que elegi como os dois melhores álbuns de MPB, a saber:

1) “Tropicália ou Panis Et Circencis” (1968). Ouça uma balada com a beleza de “Baby”. Pense nos recortes justapostos das letras de Capinam, Torquato Neto, Tom Zé, Gil e Caetano, retratos do contexto conturbado de tempos imediatamente pré-AI-5. Viaje com os fantásticos arranjos de sopros e cordas criados pelo genial Rogério Duprat. Deleite-se, com sorriso nos tímpanos, ao ouvir as subversivas regravações de “Coração Materno” (de Vicente Celestino) e do Hino do Senhor do Bonfim, e a maviosa voz de Nara Leão em “Lindonéia”. E desfrute, enfim, de um álbum-conceito que consegue ao mesmo tempo soar assombroso e acessível, experimental e pop, caótico e coerente, renovador e assobiável.

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Abrace seu cachorro. Agora mesmo.

Por Alexandre Inagakiquarta-feira, 25 de outubro de 2006

Futurama é um de meus desenhos prediletos. Criado por Matt “Simpsons” Groening e David X. Cohen, narra a história de Philip J. Fry, um entregador de pizzas que acidentalmente fica preso em uma cápsula criogênica na noite de 31 de dezembro de 1999. Fry só é descongelado mil anos depois, e a série, ao melhor estilo de obras sci-fi como o genial Guia do Mochileiro das Galáxias, retrata as desventuras de um homem do século XX perdido no ano 3.000. No universo do século XXXI, humanos convivem naturalmente com robôs e extraterrestres e locomovem-se através de naves e tubos pneumáticos. O planeta Terra faz parte de uma organização intitulada Ordem Democrática dos Planetas, fundada após a Segunda Guerra Galáctica ocorrida em 2945, ao lado de membros como Tarantulon 6, Cineplex 14 (o planeta dos cinemas), Sicily 8 (onde vivem os mafiosos) e Omicron Persei VIII (lar dos omicronianos, alienígenas que, à semelhança dos klingons de Star Trek, vivem em conflito com os humanos, apesar de acompanharem atentamente reprises da série Friends). Continue Lendo

Ayrton Senna em Interlagos

Por Alexandre Inagakisegunda-feira, 23 de outubro de 2006

Ontem tive o privilégio de assistir a uma magnífica corrida de Fórmula 1. Michael Schumacher, o chucrute voador, mostrou em seu GP de despedida porque é um dos maiores pilotos de todos os tempos. Fernando Alonso, o talentoso marrentinho de Oviedo, sagrou-se bicampeão com todos os méritos. E Felipe Massa, o sósia do Zacarias, conseguiu em seu primeiro ano na Ferrari a façanha que Barrichello perseguiu inutilmente nas seis temporadas que disputou pela escuderia italiana: vencer em Interlagos.

Porém, devo confessar que, apesar da alegria em ver um piloto brasileiro ganhar novamente uma corrida no país após 13 anos de jejum, a emoção que senti não passou nem perto daquela que vivi quando vi, pela televisão, Ayrton Senna vencer o GP de 1991 de maneira épica. Por mais bacana que tenha sido a vitória de Massa, basta assistir ao vídeo abaixo para constatar que Senna mobilizou muito mais a torcida.

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“O culpado é o governo”

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 29 de setembro de 2006

Por onde anda Luiz Gê?

A tira acima, desenhada pelo genial Luiz Gê, foi publicada originalmente na edição 17 da revista Chiclete com Banana, em fevereiro de 1989. Naquela época, José Sarney estava no final de seu mandato como Presidente. Recordar é viver, e não custa nada lembrar que nesse período inúmeros veículos denunciaram o aliciamento de parlamentares por parte do governo (através da ampla concessão de emissoras de rádios e TVs e aprovação de emendas no Orçamento), a fim de que votassem a favor de um quinto ano de mandato presidencial para Sarney (a emenda acabou sendo aprovada). Tirando-se esta contextualização, a charge poderia ter sido desenhada hoje. Infelizmente.

* * * * *

P.S. 1: Alex Castro acaba de lançar um livro de contos, Onde Perdemos Tudo, com venda em formato PDF através da livraria virtual Amazon. Segundo Alex, ele está fazendo essa experiência por causa da falta de feedback das editoras tradicionais. Eu, que sou leitor há tempos do seu instigantemente polêmico blog, torço para que seja uma iniciativa bem-sucedida.

P.S. 2: No dia 6 de outubro, a escritora Bruna Beber estará lançando seu livro de poesias A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes em São Paulo. Para ser mais exato: a partir das 20 horas, na Mercearia São Pedro. Estarei lá.

P.S. 3: É tempo de campanha, e eu peço licença para fazer a minha também. Este blog foi indicado ao The BOBs, concurso internacional de blogs promovido pela Deutsche Welle. Se você quiser dar uma forcinha a este blogueiro, clique aqui para deixar seu comentário. Prometo que serei intransigente na defesa das minorias, como os muçulmanos albinos, os fanhos de Sapopemba e os fãs de pudim de jiló!

P.S. 4: Dois motivos de orgulho pessoal. O primeiro foi descobrir que quem digita “xô Sarney” e depois “estou com sorte” no Google vem parar aqui. O segundo, constatar que este blog não recebeu uma visita sequer gerada pelo vídeo na praia de certa apresentadora da MTV. A propósito: continuo recomendando visitas diárias ao blog de Alcinéa Cavalcante.

P.S. 5: Bom voto a todos neste domingo!

Não seja imbecil, vote consciente

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 26 de setembro de 2006

Ah, quer dizer que você acha que todo político é ladrão e que se você votar nulo e deixar de participar do “corrompido processo eleitoral” estará ajudando o Brasil a se tornar um país melhor? Com o devido respeito, não posso deixar de expressar minha opinião: você é uma besta.

Ok, se você me disser que faz trabalhos voluntários ou participa de alguma ONG tem todo o direito de me contestar, porque prova que ao menos faz algo para mudar esse estado de coisas. Porém, se você é daquelas pessoas que limitam-se a reencaminhar e-mails “indignados”, falam mal do governo enquanto furam a fila do cinema, vociferam contra a corrupção enquanto seus cachorrinhos cagam no meio da calçada pública e usam a Internet para baixar o vídeo daquela modelo na praia ou fuçar a vida do ex-namorado no Facebook em vez de buscar informações sobre os candidatos destas eleições, tenho a sólida impressão de que você não hesitaria em aceitar mensalões e propinas caso tivesse as mesmas, hmm, oportunidades.

Em tempos nos quais diversos sites apartidários como Transparência Brasil, Voto Consciente, Contas Abertas, Congresso em Foco e Políticos do Brasil disponibilizam todo um manancial de informações preciosas para os eleitores, não posso deixar de pensar que só joga seu voto fora quem é excluído digital, tem preguiça de dispender alguns momentos de seu tempo ocioso para escolher com consciência seus candidatos ou é um analfabeto político que se encaixa à perfeição na descrição feita pelo poema de Brecht:

Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

Em resumo: “é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política”.

Conheça os outros participantes da blogagem coletiva sobre ética na política.Depois, quando o Congresso Nacional reunir-se para discutir a reforma tributária, qual é a moral que o eleitor nulo terá para reclamar dos impostos que paga? Quando os deputados e senadores decidirem o que será feito a respeito da legislação sobre crimes hediondos, questões ambientais e eco-sociais, cassação de parlamentares envolvidos em processos judiciais, reformas políticas e previdenciárias e outros assuntos que afetam nosso dia-a-dia, quem será o representante do eleitor nulo? Porém, mais grave ainda é a omissão dos eleitores que possuem condições de buscar informações que vão além da alienação causada por estratégias marketeiras e vinhetas televisivas, porque estes não possuem desculpas aceitáveis para ajudar na formação de um Congresso, uma Assembleia Legislativa, uma Câmara de Vereadores melhor.

É claro que é muito mais fácil e mais cômodo cruzar os braços e sequer pesquisar informações antes de votar. Menos mal que quem se dispõe a exercer seu direito democrático com a devida responsabilidade se surpreenderá positivamente, desmentindo a generalização estúpida de que só existem políticos corruptos. Os meios estão aí, à disposição de quem se dispor a rastrear informações, cruzar dados e investigar a vida pregressa daqueles que pedem pelo seu voto. Além dos sites citados no terceiro parágrafo deste post, uma breve busca pelo Google informa a URL das páginas daqueles que efetivamente possuem currículo e propostas que justifiquem a razão de ser de suas candidaturas. Outras matérias do site Congresso em Foco informam a lista dos parlamentares que respondem a processos judiciais, os deputados que se ausentaram das votações de processos de cassação na Câmara e os parlamentares que foram destaque em temas como inovação tecnológica, saúde, segurança jurídica e defesa da democracia.

Aos que ainda insistem em crer na falácia de que votar nulo anulará as eleições ou impedirá os candidatos atuais de participarem novamente, recomendo fortemente a leitura desta entrevista concedida por Marco Aurélio Mello a Fernando Rodrigues da Folha de S. Paulo, e destes artigos de Antônio Augusto de Queiroz, Rosangela T. Giembinsky e Fernando Gouveia.

Mas, se depois de todo esse papo você ainda não se convenceu da importância do seu voto e da inutilidade do ato de anulá-lo, eis o meu último e mais persuasivo apelo: o recado de meus camaradas Calvin e Haroldo. E, por favor, faça algo mais útil do que simplesmente colocar um nariz de palhaço.

Calvin e Haroldo falando de política.

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P.S. 1: Sim, política precisa ser levada a sério. Mas não dá para ignorar a fauna de candidatos pitorescos que, auxiliados pela popularidade do YouTube, tornaram-se conhecidos no Brasil inteiro graças a seus, hmm, singelos vídeos de campanha. Confira algumas destas figuras através do blog Candidatos Bizarros e dos links da matéria É pra rir ou pra chorar?, escrita por Edson Sardinha para o site Congresso em Foco.

P.S. 2: Este blog permanece engajado na campanha “Xô Sarney” e recomenda a leitura diária dos posts de Alcinéa Cavalcante.

P.S. 3: Algumas leituras para ampliar o leque de discussões: Valoriza o teu voto (Frei Betto), Eu não voto desde 1998 (Alexandre Rodrigues) e Que país é esse? (Cristiano Dias).

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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