Morte e vida digital

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 09 de novembro de 2006

Memento mori” é uma expressão em latim que ressalta o óbvio nem sempre recordado: “lembre-se de que você vai morrer“. A saudação, longe de ser pessimista, serve para que tomemos consciência de que um dia morreremos, e precisamos investir na vida enquanto ainda estamos por aqui. Não se trata de morbidez: pensar na morte é meditar sobre a vida, é aprender a encará-la com a serena naturalidade de quem sabe que ela faz parte inexorável da nossa existência.

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Meu amigo Daniel.Meu amigo Daniel Barros faleceu em 30 de outubro do ano passado, aos 50 anos. No entanto, segundo sua persona no Orkut, ele já completou 51 anos de idade. Quando vi em minha página inicial o lembrete de seu aniversário, deixei uma mensagem em seu perfil. Assim como eu, vários dos muitos amigos de Daniel também escreveram recados, não se importando com o fato de o aniversariante não estar mais por aqui para respondê-los. Um dos depoimentos deixados fala em torcer para que haja conexão à Web onde quer que ele esteja (“espero que existam cibercafés no céu”). Continue Lendo

This is love

Por Alexandre Inagakisegunda-feira, 06 de novembro de 2006

Hoje não quero mais pensar, e imagino como seria bom estar na pele daqueles hare krishnas que passam o dia inteiro entoando aqueles mantras hipnóticos, hare hare hare hare, esvaziando a cabeça de qualquer manifestação supérflua dos neurônios, esses bichos amaldiçoados que jogam squash na quadra do meu crânio. Ah, que inveja dos cachorros que sorriem como naquela canção do Roberto, arfando com a língua de fora, despreocupados feito velhos hippies emaconhados, pedindo migalhas de brownie em troca de carinho ilimitado, sem aquelas cobranças exasperantes, “você me ama?”, “você me ama?”, maldito mantra dos amantes inseguros. Elos de ligação, chuvas molhadas, monopólios exclusivos, amantes inseguros, minha mente enfileira uma série de redundâncias pleonasticamente repetitivas, e eu sei que tudo não passa de subterfúgio barato para driblar essa saudade que me come por dentro feito um Alien recém-nascido. Mas eu só sei que nada sei, baby.

O café já esfriou, a piada perdeu a graça e as batatas fritas murcharam. A noite está tão quieta que chego a ouvir o ponteiro dos segundos se arrastando no relógio. Ligo a tevê para abafar o barulho do silêncio, recordando com saudade dos tempos em que assistia a comerciais de facas Ginsu e meias Vivarina, nada poderia ser mais eficaz para desligar as tomadas da minha cabeça, bastava sentar na poltrona, relaxar e acionar o screen saver do meu cérebro. Mas agora está passando um filme do Truffaut, e o que menos quero é pensar no delírio consciente da paixão. Continue Lendo

Festa da democracia?

Por Alexandre Inagakiquarta-feira, 01 de novembro de 2006

Se eleições são a “festa da democracia”, devo dizer que me senti como um daqueles caras que acabaram de levar um fora da namorada e passam o baile inteiro se embebedando na esperança de anestesiar o nó na garganta da alma.

Não que eu não tenha gostado dos resultados. Até porque esta foi a primeira vez, desde 1989 (quando fui de Covas no primeiro turno e Lula no segundo), que votei em um candidato que venceu as eleições presidenciais. Mas foi uma vitória com um certo (dis)sabor de decepção, pela constatação de que esta foi uma campanha medíocre, que serviu para disseminar acusações passionalmente injustas de ambos os lados. Consegui a façanha, aliás, de bater boca tanto com amigos tucanos quanto petistas. Enquanto os peessedebistas quase chegaram ao ponto de dizer que eu havia me tornado cúmplice dos mensaleiros ao declarar voto em Lula devido aos inegáveis avanços nos campos da educação e distribuição de renda, citando ainda o Prouni, Luz para Todos e o programa da Bioenergia como excelentes projetos tocados por este governo, tive amigos petistas que quase tiveram uma síncope só porque elogiei o governo FHC pela criação da Lei de Responsabilidade Fiscal e pela implantação de um plano econômico que finalmente acabou com a inflação.

Triste do país cujos debates políticos são tomados por uma visão maniqueísta. Por conta disso, torna-se quase utópica a esperança de ver os melhores quadros públicos, independentemente de filiações partidárias, unidos em prol do desenvolvimento deste país, à semelhança de iniciativas como a “Concertación Política” no Chile (citada recentemente pelo Ministro Tarso Genro) ou o histórico Pacto de Moncloa, que congregou em uma mesma mesa presidentes de todos os partidos da Espanha após o fim da ditadura de Franco, e que permitiu à nação européia fomentar seu crescimento e desenvolvimento deixando divergências ideológicas de lado.

Um exemplo sintomático de como os marqueteiros difundiram estereótipos imbecilizantes são as respostas recebidas por Rodrigo Alvares, do blog coletivo A Nova Corja, a uma mesma pergunta feita a militantes do PT e do PSDB.

Para o petista: “Hã, oi. Tu sabe que não pode agitar bandeira tão perto da zona eleitoral, né?”

Petista: “Que o quê. Some da minha frente, ô privatista”.

Atravesso a rua.

Para a tucana: “Hã, oi. Tu sabe que não pode agitar bandeira tão perto da zona eleitoral, né?”

Tucana: “Por que tu não vai reclamar para o Lula, seu mensaleiro de merda?”

Neste cenário, em que proliferaram adesivos com dizeres estúpidos como “o bem sempre vence o mal”, não é de se admirar que eu tenha encontrado gente lamentando a reeleição com termos como “o Brasil não vai agüentar mais quatro anos de Lula” ou, pior, “bem feito, esse povo agora vai tomar na cabeça” (frases verídicas que tive de aturar na última segunda-feira). Por que ainda me espanto com essa torcida do contra, neste clima futebolístico que incitou rivalidades gratuitas e fez com que pessoas usassem termos pejorativos como “petralhas” e “tucanalhas”?

Eu, que já fui chamado de “massa de manobra da direita” e “petista factóide” em diferentes momentos destas eleições, lamento por crer que o Brasil só deixará de ser este eterno país do futuro que nunca chega no dia em que as melhores cabeças desta nação, sejam elas tucanas, petistas, pefelistas, psolistas ou anarquistas, firmarem um pacto em torno do desenvolvimento nacional. Mas é mais provável que este sonho deva ter surgido no meio do sono após o porre que tomei durante a festa dos intolerantes.

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Mudando ligeiramente de assunto, gostaria de fazer um agradecimento público a alguns blogueiros que, não satisfeitos em votarem em Pensar Enlouquece na categoria Melhor Weblog em Português no The BOBs, ainda conclamaram seus leitores a fazerem o mesmo. Meu muito obrigado, pois, a Edney Souza (InterNey), Luciana Naomi (Pensamentos de uma Batata Transgênica), André Julião (Um baiano em Campinas), Susan (De Cara pra Lua), Marcos Donizetti (Me, Myself and I), Idelber Avelar (O Biscoito Fino e a Massa) e Bia Kunze (Garota Sem Fio).

80 clipes brasileiros dos anos 80 (parte 1 de 8)

Por Alexandre Inagakidomingo, 29 de outubro de 2006

Ritchie – “A Mulher Invisível” – Depois de ter vendido mais de 1 milhão de cópias de Vôo de Coração (1983), seu álbum de estréia, o inglês radicado no Brasil Richard Court partiu para a gravação do segundo disco cercado de grandes expectativas. E foi assim que, em 1984, a gravadora CBS lançou … E a Vida Continua, com direito a um generoso orçamento para a filmagem do videoclipe da música de trabalho, “A Mulher Invisível”. Em entrevista concedida a Ricardo Alexandre para o livro Dias de Luta, Ritchie narra a saga deste clipe: “Gastamos uma fortuna para rodar em 35 milímetros, com uma equipe enorme, cenários, diretor de arte, extras. Ao todo, gastamos US$ 42 mil. Tudo para o Fantástico falar: ‘Não segue o padrão Globo, não vamos passar’“. Em tempos pré-MTV e pré-YouTube, um cantor não ter seu videoclipe exibido no Fantástico era sinônimo de desastre. De fato, seu segundo álbum não obteve nem um quinto das vendagens do primeiro, e o LP seguinte, Circular (1985), seria o último de Ritchie com a gravadora CBS. Continue Lendo

Rogério Duprat (1932 – 2006)

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 27 de outubro de 2006

Mestre Rogério Duprat abarcando o tempo em Londres, 1969.

Quando fiz, em março de 2004, uma lista dos 10 melhores discos de música popular brasileira de todos os tempos, citei o nome do maestro Rogério Duprat, falecido na noite de ontem, nos textos que escrevi sobre aqueles que elegi como os dois melhores álbuns de MPB, a saber:

1) “Tropicália ou Panis Et Circencis” (1968). Ouça uma balada com a beleza de “Baby”. Pense nos recortes justapostos das letras de Capinam, Torquato Neto, Tom Zé, Gil e Caetano, retratos do contexto conturbado de tempos imediatamente pré-AI-5. Viaje com os fantásticos arranjos de sopros e cordas criados pelo genial Rogério Duprat. Deleite-se, com sorriso nos tímpanos, ao ouvir as subversivas regravações de “Coração Materno” (de Vicente Celestino) e do Hino do Senhor do Bonfim, e a maviosa voz de Nara Leão em “Lindonéia”. E desfrute, enfim, de um álbum-conceito que consegue ao mesmo tempo soar assombroso e acessível, experimental e pop, caótico e coerente, renovador e assobiável.

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Abrace seu cachorro. Agora mesmo.

Por Alexandre Inagakiquarta-feira, 25 de outubro de 2006

Futurama é um de meus desenhos prediletos. Criado por Matt “Simpsons” Groening e David X. Cohen, narra a história de Philip J. Fry, um entregador de pizzas que acidentalmente fica preso em uma cápsula criogênica na noite de 31 de dezembro de 1999. Fry só é descongelado mil anos depois, e a série, ao melhor estilo de obras sci-fi como o genial Guia do Mochileiro das Galáxias, retrata as desventuras de um homem do século XX perdido no ano 3.000. No universo do século XXXI, humanos convivem naturalmente com robôs e extraterrestres e locomovem-se através de naves e tubos pneumáticos. O planeta Terra faz parte de uma organização intitulada Ordem Democrática dos Planetas, fundada após a Segunda Guerra Galáctica ocorrida em 2945, ao lado de membros como Tarantulon 6, Cineplex 14 (o planeta dos cinemas), Sicily 8 (onde vivem os mafiosos) e Omicron Persei VIII (lar dos omicronianos, alienígenas que, à semelhança dos klingons de Star Trek, vivem em conflito com os humanos, apesar de acompanharem atentamente reprises da série Friends). Continue Lendo

Ayrton Senna em Interlagos

Por Alexandre Inagakisegunda-feira, 23 de outubro de 2006

Ontem tive o privilégio de assistir a uma magnífica corrida de Fórmula 1. Michael Schumacher, o chucrute voador, mostrou em seu GP de despedida porque é um dos maiores pilotos de todos os tempos. Fernando Alonso, o talentoso marrentinho de Oviedo, sagrou-se bicampeão com todos os méritos. E Felipe Massa, o sósia do Zacarias, conseguiu em seu primeiro ano na Ferrari a façanha que Barrichello perseguiu inutilmente nas seis temporadas que disputou pela escuderia italiana: vencer em Interlagos.

Porém, devo confessar que, apesar da alegria em ver um piloto brasileiro ganhar novamente uma corrida no país após 13 anos de jejum, a emoção que senti não passou nem perto daquela que vivi quando vi, pela televisão, Ayrton Senna vencer o GP de 1991 de maneira épica. Por mais bacana que tenha sido a vitória de Massa, basta assistir ao vídeo abaixo para constatar que Senna mobilizou muito mais a torcida.

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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A vida é boa e cheia de possibilidades.
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