Ayrton Senna em Interlagos

Por Alexandre Inagakisegunda-feira, 23 de outubro de 2006

Ontem tive o privilégio de assistir a uma magnífica corrida de Fórmula 1. Michael Schumacher, o chucrute voador, mostrou em seu GP de despedida porque é um dos maiores pilotos de todos os tempos. Fernando Alonso, o talentoso marrentinho de Oviedo, sagrou-se bicampeão com todos os méritos. E Felipe Massa, o sósia do Zacarias, conseguiu em seu primeiro ano na Ferrari a façanha que Barrichello perseguiu inutilmente nas seis temporadas que disputou pela escuderia italiana: vencer em Interlagos.

Porém, devo confessar que, apesar da alegria em ver um piloto brasileiro ganhar novamente uma corrida no país após 13 anos de jejum, a emoção que senti não passou nem perto daquela que vivi quando vi, pela televisão, Ayrton Senna vencer o GP de 1991 de maneira épica. Por mais bacana que tenha sido a vitória de Massa, basta assistir ao vídeo abaixo para constatar que Senna mobilizou muito mais a torcida.

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“O culpado é o governo”

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 29 de setembro de 2006

Por onde anda Luiz Gê?

A tira acima, desenhada pelo genial Luiz Gê, foi publicada originalmente na edição 17 da revista Chiclete com Banana, em fevereiro de 1989. Naquela época, José Sarney estava no final de seu mandato como Presidente. Recordar é viver, e não custa nada lembrar que nesse período inúmeros veículos denunciaram o aliciamento de parlamentares por parte do governo (através da ampla concessão de emissoras de rádios e TVs e aprovação de emendas no Orçamento), a fim de que votassem a favor de um quinto ano de mandato presidencial para Sarney (a emenda acabou sendo aprovada). Tirando-se esta contextualização, a charge poderia ter sido desenhada hoje. Infelizmente.

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P.S. 1: Alex Castro acaba de lançar um livro de contos, Onde Perdemos Tudo, com venda em formato PDF através da livraria virtual Amazon. Segundo Alex, ele está fazendo essa experiência por causa da falta de feedback das editoras tradicionais. Eu, que sou leitor há tempos do seu instigantemente polêmico blog, torço para que seja uma iniciativa bem-sucedida.

P.S. 2: No dia 6 de outubro, a escritora Bruna Beber estará lançando seu livro de poesias A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes em São Paulo. Para ser mais exato: a partir das 20 horas, na Mercearia São Pedro. Estarei lá.

P.S. 3: É tempo de campanha, e eu peço licença para fazer a minha também. Este blog foi indicado ao The BOBs, concurso internacional de blogs promovido pela Deutsche Welle. Se você quiser dar uma forcinha a este blogueiro, clique aqui para deixar seu comentário. Prometo que serei intransigente na defesa das minorias, como os muçulmanos albinos, os fanhos de Sapopemba e os fãs de pudim de jiló!

P.S. 4: Dois motivos de orgulho pessoal. O primeiro foi descobrir que quem digita “xô Sarney” e depois “estou com sorte” no Google vem parar aqui. O segundo, constatar que este blog não recebeu uma visita sequer gerada pelo vídeo na praia de certa apresentadora da MTV. A propósito: continuo recomendando visitas diárias ao blog de Alcinéa Cavalcante.

P.S. 5: Bom voto a todos neste domingo!

Não seja imbecil, vote consciente

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 26 de setembro de 2006

Ah, quer dizer que você acha que todo político é ladrão e que se você votar nulo e deixar de participar do “corrompido processo eleitoral” estará ajudando o Brasil a se tornar um país melhor? Com o devido respeito, não posso deixar de expressar minha opinião: você é uma besta.

Ok, se você me disser que faz trabalhos voluntários ou participa de alguma ONG tem todo o direito de me contestar, porque prova que ao menos faz algo para mudar esse estado de coisas. Porém, se você é daquelas pessoas que limitam-se a reencaminhar e-mails “indignados”, falam mal do governo enquanto furam a fila do cinema, vociferam contra a corrupção enquanto seus cachorrinhos cagam no meio da calçada pública e usam a Internet para baixar o vídeo daquela modelo na praia ou fuçar a vida do ex-namorado no Facebook em vez de buscar informações sobre os candidatos destas eleições, tenho a sólida impressão de que você não hesitaria em aceitar mensalões e propinas caso tivesse as mesmas, hmm, oportunidades.

Em tempos nos quais diversos sites apartidários como Transparência Brasil, Voto Consciente, Contas Abertas, Congresso em Foco e Políticos do Brasil disponibilizam todo um manancial de informações preciosas para os eleitores, não posso deixar de pensar que só joga seu voto fora quem é excluído digital, tem preguiça de dispender alguns momentos de seu tempo ocioso para escolher com consciência seus candidatos ou é um analfabeto político que se encaixa à perfeição na descrição feita pelo poema de Brecht:

Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

Em resumo: “é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política”.

Conheça os outros participantes da blogagem coletiva sobre ética na política.Depois, quando o Congresso Nacional reunir-se para discutir a reforma tributária, qual é a moral que o eleitor nulo terá para reclamar dos impostos que paga? Quando os deputados e senadores decidirem o que será feito a respeito da legislação sobre crimes hediondos, questões ambientais e eco-sociais, cassação de parlamentares envolvidos em processos judiciais, reformas políticas e previdenciárias e outros assuntos que afetam nosso dia-a-dia, quem será o representante do eleitor nulo? Porém, mais grave ainda é a omissão dos eleitores que possuem condições de buscar informações que vão além da alienação causada por estratégias marketeiras e vinhetas televisivas, porque estes não possuem desculpas aceitáveis para ajudar na formação de um Congresso, uma Assembleia Legislativa, uma Câmara de Vereadores melhor.

É claro que é muito mais fácil e mais cômodo cruzar os braços e sequer pesquisar informações antes de votar. Menos mal que quem se dispõe a exercer seu direito democrático com a devida responsabilidade se surpreenderá positivamente, desmentindo a generalização estúpida de que só existem políticos corruptos. Os meios estão aí, à disposição de quem se dispor a rastrear informações, cruzar dados e investigar a vida pregressa daqueles que pedem pelo seu voto. Além dos sites citados no terceiro parágrafo deste post, uma breve busca pelo Google informa a URL das páginas daqueles que efetivamente possuem currículo e propostas que justifiquem a razão de ser de suas candidaturas. Outras matérias do site Congresso em Foco informam a lista dos parlamentares que respondem a processos judiciais, os deputados que se ausentaram das votações de processos de cassação na Câmara e os parlamentares que foram destaque em temas como inovação tecnológica, saúde, segurança jurídica e defesa da democracia.

Aos que ainda insistem em crer na falácia de que votar nulo anulará as eleições ou impedirá os candidatos atuais de participarem novamente, recomendo fortemente a leitura desta entrevista concedida por Marco Aurélio Mello a Fernando Rodrigues da Folha de S. Paulo, e destes artigos de Antônio Augusto de Queiroz, Rosangela T. Giembinsky e Fernando Gouveia.

Mas, se depois de todo esse papo você ainda não se convenceu da importância do seu voto e da inutilidade do ato de anulá-lo, eis o meu último e mais persuasivo apelo: o recado de meus camaradas Calvin e Haroldo. E, por favor, faça algo mais útil do que simplesmente colocar um nariz de palhaço.

Calvin e Haroldo falando de política.

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P.S. 1: Sim, política precisa ser levada a sério. Mas não dá para ignorar a fauna de candidatos pitorescos que, auxiliados pela popularidade do YouTube, tornaram-se conhecidos no Brasil inteiro graças a seus, hmm, singelos vídeos de campanha. Confira algumas destas figuras através do blog Candidatos Bizarros e dos links da matéria É pra rir ou pra chorar?, escrita por Edson Sardinha para o site Congresso em Foco.

P.S. 2: Este blog permanece engajado na campanha “Xô Sarney” e recomenda a leitura diária dos posts de Alcinéa Cavalcante.

P.S. 3: Algumas leituras para ampliar o leque de discussões: Valoriza o teu voto (Frei Betto), Eu não voto desde 1998 (Alexandre Rodrigues) e Que país é esse? (Cristiano Dias).

Como a campanha “Xô Sarney” se espalhou pela blogosfera

Por Alexandre Inagakidomingo, 03 de setembro de 2006

Xô Sarney!Tudo começou com um desenho feito pelo cartunista Ronaldo Rony no muro de sua casa, localizada na avenida Mendonça Furtado, no centro de Macapá. A caricatura, uma charge sugestivamente intitulada “Xô Sarney” (imagem posteriormente reproduzida pelo próprio Ronaldo na camiseta da foto à direita, trajada por Patrícia Andrade), expressava os sentimentos de Ronaldo e de boa parte da população amapaense com relação ao ex-Presidente da República José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, que mudou seu domicílio eleitoral do Maranhão para o Amapá em 1990 com o objetivo de assegurar com maior facilidade uma vaga para o Senado Federal. Foi uma boa cartada de Sarney, que atualmente cumpre seu segundo mandato como Senador pelo Amapá. Nas eleições deste ano, o autor de Brejal dos Guajas (que recebeu de Millôr Fernandes o seguinte comentário: “só um gênio conseguiria fazer um livro errado da primeira à última frase“) postula nova reeleição. Contudo, a campanha do ex-presidente tem sido marcada por diversas ações na Justiça impetradas contra jornais e rádios amapaenses.

A coligação União Pelo Amapá, que apóia as candidaturas José Sarney para o Senado e Waldez Goes para o Governo, chegou ao ponto de processar o Google, a fim de solicitar que o site de buscas retirasse de seu arquivo todas as matérias que supostamente veiculassem conteúdo negativo à imagem de seus candidatos. A liminar foi considerada improcedente pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amapá. Mas os advogados da coligação continuariam aprontando das suas.

Na terça-feira, dia 22, a jornalista Alcinéa Cavalcante publicou em seu blog um post intitulado “O Adesivo Perfeito”, no qual afirmava que a frase “o carro que mais combina comigo é o camburão da polícia” seria ótima para estampar o vidro traseiro do carro de um certo candidato. Dois dias depois, os advogados de Sarney entraram com uma representação solicitando a imediata retirada do ar de uma “publicação ofensiva”. A motivação do pedido foi um comentário publicado no post supracitado, assinado pelo leitor Paulo Henrique, fazendo alusão a uma piada antiga sobre certa “fazenda de burros” que o senador supostamente possuiria no Amapá. Além de limar o blog do ar, a ação ainda solicitava a aplicação de uma multa no valor de R$ 106.410,00. O juiz eleitoral Luiz Carlos Gomes dos Santos, mostrando possuir ainda bom senso, indeferiu o pedido feito pela coligação. É inevitável vislumbrar neste imbróglio semelhanças com o caso Imprensa Marrom. Contudo, o pior ainda estava por vir.

Na sexta-feira, dia 25, novo pedido de liminar foi feito em nome do ex-Presidente, desta vez atingindo o blog Repiquete no Meio do Mundo (infelizmente sem registro no cache do Google), mantido pela jornalista Alcilene Cavalcante, irmã de Alcinéa. O motivo da ação foi uma foto publicada com a imagem da caricatura feita por Ronaldo Rony. Por meio de notificação com a liminar concedida pelo TRE do Amapá ao processo 435/2006, Alcilene se viu obrigada a apagar a foto de seu blog, caso contrário estaria sujeita ao pagamento de multa de R$ 2.000,00 por dia. No entanto, embora a blogueira tenha deletado o post com a charge de Sarney, sua página, hospedada no UOL, foi tirada do ar por ordem judicial.

Blogs vs SarneyRestava mais um alvo: o blog de Alcinéa. Em outra representação, a coligação do autor de Marimbondos de Fogo (coletânea de poemas definida por Mestre Millôr como “um livro que quando você larga não consegue mais pegar“) pediu a aplicação de multas e a retirada do ar de seis posts. No dia 26, Alcinéa informa em seu blog que “amigos do Senador” entraram em contato com ela, pedindo desculpas pela “precipitação dos advogados da coligação“. Afirmam que as ações seriam retiradas. Porém, em troca, pedem para que a jornalista amapaense deixe de escrever qualquer texto contra o ex-Presidente. Alcinéa se recusa a aceitar o “trato”. Em ligação recebida em seu celular às 20:34, outro “amigo de Sarney” afirma que se a “briga” não fosse encerrada a coligação União Pelo Amapá entraria com ações contra “os jornalistas Cláudio Humberto, Chico Bruno, Alcilene Cavalcante e todo e qualquer jornalista ou blogueiro que se manifestasse contra Sarney“.

Enquanto isso, a campanha “Xô Sarney” espalha-se pela blogosfera, através da reprodução do desenho de Ronaldo Rony em diversos sites. Ao publicar a imagem que desencadeou a censura ao blog de Alcinéa Cavalcante, Marcelo Tas escreveu: “Os jornalistas e eleitores do Amapá têm todo direito de se expressar. E claro, de escolher seus legítimos representantes. De dizer não, este ano, agora mesmo, a este oportunista bigodudo“. No dia 29, matéria de Thiago Reis para a Folha Online já contabilizava 80 blogs engajados na campanha.

Sexta-feira, dia 1, em mais um flagrante atentado à liberdade de expressão, o blog de Alcinéa Cavalcante foi enfim tirado do ar. O fato repercute no exterior e faz com que o Brasil passe a se equivaler a países como China e Irã, que também possuem o hábito pouco edificante de censurar blogs por motivos políticos. Alcinéa não desiste de escrever e migra seu blog para um servidor no exterior, passando a postar na URL http://alcineacavalcante.blogspot.com. A campanha “Xô Sarney” alastra-se de vez pela blogosfera.

Em bem-humorado texto publicado pelo Jornal Pequeno, de São Luís, MA, o responsável pela coluna “Informe JP” relata o crescimento do movimento “Xô Sarney”, mas faz um alerta aos amapaenses: “Nós, aqui do Maranhão, não aceitamos devoluções (…) Não adianta apelar para o Código do Consumidor: o prazo para devolver a mercadoria já prescreveu“. Enquanto isso, pesquisas detectam que a candidatura do pai de Roseana parece perder fôlego, uma vez que sua concorrente mais próxima, Cristina Almeida (PSB), avançou de 15,4% para 29% das intenções do voto. Aguardemos pelos próximos capítulos, cruzando os dedos e divulgando a odisséia amargada pelas irmãs Alcilene e Alcinéa Cavalcante em suas batalhas contra os advogados do autor de Marimbondos de Fogo.

Porque os comentários deste blog passarão a ser pré-aprovados antes da publicação

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 31 de agosto de 2006

Em 30 de setembro de 2004 publiquei um post intitulado “Aberta a temporada de caça aos blogs“. Nele, eu relatava o que havia acontecido com o blog Imprensa Marrom, que havia sido retirado do ar por ordem da Justiça, atendendo à solicitação de um sócio de uma certa empresa de recolocação de profissionais, que se sentiu ofendido com um comentário deixado por um visitante do blog. Detalhe: o autor da liminar sequer havia entrado em contato com Fernando Gouveia (mais conhecido na Web pelo seu pseudônimo, Gravatai Merengue), responsável pelo Imprensa Marrom, solicitando que o comentário em questão fosse apagado. Simplesmente acionou a Justiça, fez com que o blog saísse do ar e ainda requereu uma indenização por danos morais devido a um comentário que, vale a pena citar, havia sido postado por uma pessoa anônima.

Em outubro de 2004, ainda sob o impacto do caso, escrevi o postComentários: tê-los ou não, eis a questão“. Nele, explicava o porquê da adoção, no espaço de comentários deste blog, de um disclaimer redigido pela advogada Suzi Hong, fazendo a seguinte observação:

Todo e qualquer texto publicado na internet através deste sistema não reflete, necessariamente, a opinião deste weblog ou de seu autor. Os comentários publicados através deste sistema são de exclusiva e integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso. O autor deste weblog reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros. Textos de caráter promocional ou inseridos no sistema sem a devida identificação de seu autor (nome completo e endereço válido de e-mail) também poderão ser excluídos“.

Este disclaimer logo tornou-se um dos textos mais reproduzidos em toda a blogosfera. No entanto, ao adotá-lo, eu já sabia que ele seria insuficiente para me proteger de eventuais ações judiciais. Como bem explicou Suzi nos comentários do post referido: “o disclaimer NÃO TEM A PRETENSÃO de eliminar, por completo, o risco de um indivíduo qualquer acionar a justiça (e conseguir êxito no pedido da liminar). Seu propósito é minimizar o risco, servir de argumento a mais em caso de eventual litígio“.

O uso do disclaimer teve ainda a função de evitar que eu tomasse a medida provavelmente mais sensata a ser tomada: limar de vez o espaço dos comentários. Seria a prevenção definitiva a fim de evitar todo o aborrecimento, dores de cabeça e gastos advocatícios amargados pelo meu colega Fernando. No entanto, compensaria perder a interação com os leitores de Pensar Enlouquece, que tantas vezes complementaram, corrigiram, reverberaram e enriqueceram o conteúdo deste blog com seus comentários?

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Alguém pode questionar: não soa absurdo o fato de um blogueiro ser condenado por causa de um comentário anônimo escrito por um internauta qualquer? Bem, o fato é que tive acesso à sentença redigida pela juíza responsável pelo processo, e ela foi bem clara sobre o assunto: “Embora não seja o requerido (o blogueiro Fernando Gouveia) o autor das palavras ofensivas, por certo que, disponibilizando o espaço, tem responsabilidade perante o ofendido“. Em outro trecho, a juíza complementa: “a responsabilidade do requerido se mantém, pois que, ao disponibilizar o espaço para divulgação democrática (termo utilizado na contestação) do conteúdo inserido por terceiros, assume o risco sobre as expressões ofensivas veiculadas“.

Sim, após quase dois anos na Justiça finalmente saiu a sentença em primeira instância do caso Imprensa Marrom. Fernando “Gravatai Merengue” Gouveia foi condenado a pagar indenização no valor correspondente a 10 salários mínimos (ou seja, R$ 3.500,00) ao ofendido. Obviamente os advogados do meu colega entraram com um pedido de recurso. No entanto, esta primeira derrota cria uma jurisprudência pra lá de delicada. No post em que comenta a decisão da Justiça, Fernando faz um alerta a todos os blogueiros: “Se vocês não querem amanhã ou depois passar pelas agruras que estou passando, simplesmente tratem de hospedar seus blogs num país que tenha ordenamento jurídico diferente. Ficando no Brasil, eliminem os comentários“.

Apesar deste blog ser hospedado no exterior, prefiro me precaver de quaisquer dissabores. Optei, pois, por adotar a pré-aprovação de cada comentário antes que ele seja publicado, a fim de evitar a publicação de qualquer ofensa que possa ser feita a terceiros. E recomendo esta medida a qualquer blogueiro que não deseje eliminar de vez seu espaço de comentários, esteja seu blog hospedado no Brasil ou lá fora.

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P.S. 1: Leituras relacionadas: Sentença judicial contra Imprensa Marrom abre perigoso precedente na blogosfera brasileira (Idelber Avelar), Justiça às turras com a Internet (Alex Castro), Na mira da Justiça (Rodney Brocanelli) e Manual de sobrevivência na selva de bits (Túlio Lima Vianna & Cynthia Semíramis Vianna).

P.S. 2: É uma pena ter que publicar um post como este justamente no Blog Day.

P.S. 3: Ainda sobre a blogosfera, vale a pena dar uma conferida na Pesquisa Blogosfera Brasil, realizada por meus camaradas do condomínio virtual Verbeat.

Entre o moderno e o eterno

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 24 de agosto de 2006

Entre o moderno e o eterno

Em seu famoso ensaio sobre a Modernidade, Baudelaire a definiu como sendo o transitório, o efêmero, todos os elementos que sejam condicionados pela época, pela moda, pelas paixões. Mas, para além da volatilidade que lhe é inerente, há também na Modernidade o fascínio fugidio das metamorfoses, dessa tensão constante entre tradição e mudança. O papel do artista estaria, pois, em extrair a beleza misteriosa da fugacidade moderna, a fim de destilar-lhe o que há de eterno.

Ok, mas o que é que as mulheres têm a ver com isso?

Vivemos uma era caótica. O walkman de ontem é o iPod de hoje, que amanhã já estará obsoleto. Pertencemos a gerações precocemente nostálgicas, que têm saudades da Turma do Balão Mágico, TV Pirata e a zebrinha do Fantástico simplesmente porque mal tiveram tempo de assimilar uma época que parece ter terminado precocemente, soterrada em meio a mudanças cada vez mais repentinas. Mas quem está na casa dos trinta anos até que teve sorte. Fico pensando nessa molecada que mal saiu das fraldas e já é condicionada a ter aulas de inglês, informática, japonês, natação e o que mais couber em suas agendas, a fim de se preparar para enfrentar os desafios profissionais nestes fucking times de downsizings e empowerments.

E se essa criança for do sexo feminino, sai de baixo. Haja 24 horas para a mulher que deseja construir uma carreira profissional, ter e criar filhos, controlar o próprio peso, encontrar um cara legal ou, na ausência dele, aprender a trocar pneus, ao mesmo tempo que lava pratos, retoca a maquiagem, cursa uma faculdade e curte a vida por aí. Sexo frágil é o escambau!

É bóbvio que nem todas as mulheres enquadram-se no perfil rascunhadamente traçado no parágrafo acima, vide as neoamélias, popozudas, marias-gasolina, mocinhas com a Síndrome de Cinderela que ainda sonham com o seu príncipe encantado (aquele mesmo que vira sapo logo após gozar) e executivas workaholics que acham que homens são todos iguais e não hesitariam em trocá-los por vibradores que também abram vidros de palmito.

Mas tergiverso, tergiverso. E eu, que sou apenas um rapaz latino-americano, percebo que é impossível definir todas as inquietações, idiossincrasias, trejeitos, nuances e sentimentos presentes no olhar feminino. Porque, diante do sorriso de uma mulher, sou subitamente remetido aos tempos em que eu era um garoto bobão repleto de espinhas e dúvidas existenciais por todos os lados (não que eu tenha melhorado muito desde então; tornei-me apenas um bobão mais experiente). Percebo, então, que neste curso inexorável da vida em que tudo fenece e morre, a eternidade está contida no tempestuoso céu dos olhos de uma mulher que talvez nunca mais reveja, descrita por Baudelaire como “efêmera beldade cujo olhar me fez nascer segunda vez“. Mas como haverei de reencontrá-la, se a perdi em meio ao tumultuado turbilhão das multidões da modernidade?

E cá estamos. Entre o moderno e o eterno, vejo homens e mulheres perambulando por aí, confusos nesta era pós-utopias, de ideologias incertas e instituições fragilizadas. E eu, que facilmente me perco em ruas, corredores, pensamentos e tergiversações, encerro esta discussão divagando sobre Orkut, aparelhos de GPS e outras facilidades pós-modernas que nos permitem vagar menos perdidos por este mundo e reencontrar velhos amigos. Chegará o dia em que os avanços tecnológicos, tão incensados pelos poetas da modernidade, enfim desatarão o nó dos labirintos que separam casais extraviados pelo alarido frenético das ruas?

* * * * *

P.S. 1: Este é um texto que escrevi originalmente para publicação no Kit Básico da Mulher Moderna, blog da minha amiga Renata Maneschy. A bela ilustração é de Guga Schultze.

P.S. 2: O poema de Baudelaire que cito en passant é “A Uma Passante”. Três diferentes versões deste soneto para o português estão disponíveis neste texto de Maria Amelia Ferreira sobre traduções.

P.S. 3: Convite aos meus leitores goianienses: participar do lançamento de Partitura, primeiro livro solo de meu camarada AL-Chaer, poeta, engenheiro civil, professor universitário, colaborador do Spam Zine e pai da Laura (não necessariamente nesta ordem). Partitura será lançado nesta quinta-feira, dia 31, a partir das 20h, no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro (Rua 3, esquina com 9, Centro).

P.S. 4: Acabei de saber da incrível história de plágio envolvendo o blog Querido Leitor, da Rosana Hermann, e um certo colunista chamado Miltinho Cunha, que escreve no jornal O Estado, de Florianópolis. Pois bem: este “jornalista” surrupia há mais de um ano excertos de posts publicados pela Rosana, plagiando-os na maior desfaçatez. Saiba mais sobre este estarrecedor caso de copy-and-paste nas matérias do Comunique-se e Blue Bus, e leia a crônica “Plágio: o que será que será?”, que Rosana Hermann escreveu sobre o assunto, no Blônicas.

Uma tira e cinco post-scriptuns

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 22 de agosto de 2006

Que venga la idea

P.S. 1: A tira acima é do argentino Ricardo Siri, que usa o pseudônimo Liniers para publicar seus trabalhos em veículos como o jornal La Nación. Ele ainda será assunto de um post mais detalhado, a ser escrito quando eu estiver menos enrolado com alguns trabalhos.

P.S. 2: Laura, do blog Caminhar, está organizando uma blogagem coletiva sobre o tema “violência urbana”, a ser realizada nesta terça-feira, dia 22. Todos estão convidados a participar desta iniciativa, seja blogando, comentando ou lendo os posts dos participantes, devidamente relacionados neste link.

P.S. 3: Lamento por quem perdeu o bate-papo sobre blogs e literatura, promovida pela Primavera dos Livros no último sábado aqui em Sampa City. Melhor do que ela, só mesmo a oportunidade de conhecer e/ou reencontrar leitores e colegas, principalmente pela troca de idéias realizada no ambiente mais propício para uma boa prosa descompromissada: ao redor de uma mesa de bar. À guisa de consolo, recomendo os relatos (mais ou menos verídicos) feitos por Lucia Carvalho, Gustavo Jreige, Julio Cesar Corrêa, Idelber Avelar e Luiz Biajoni, além dos comentários feitos por quem estrelou a mesa de debates: Índigo, Ivana Arruda Leite e Rosana Hermann.

P.S. 4: E por falar em mesas de conversa, soube por intermédio da Lucia Malla do surgimento de uma ótima iniciativa na blogosfera lusófona: Roda de Ciência, um ponto de encontro de cientistas, pesquisadores, jornalistas e interessados na área.

P.S. 5:Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a penugem morna que sobe como uma efervescência de sal de frutas“. (Julio Cortázar)

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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