Artigos do mês de: fevereiro 2008

Hoje é 29 de fevereiro, e a vida não pára

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Hoje é uma data que, feito os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo ou as eleições presidenciais, só ocorre de quatro em quatro anos. Esta singularidade me fez pensar no que eu estava fazendo da vida no último dia 29 de fevereiro, do mesmo modo que fez meu camarada Alex Castro.

Em 29 de fevereiro de 2004 eu tinha 30 anos. Passava seis horas do meu dia trabalhando em um banco, não conhecia ainda a minha namorada nem muitos dos meus amigos com quem compartilho projetos e os planos de conquistar o mundo, incluindo-se aí os territórios de Vladivostok, Dudinka, Vancouver e Omsk. Hoje consigo ganhar algum dinheiro com blogs, trabalho full time em casa prestando consultorias ou frilas jornalísticos, me enredo em vários projetos ao mesmo tempo e, parando para pensar no que eu estava fazendo há exatos quatro anos, mal consigo resgatar um passado relativamente recente, tantas foram as mudanças na minha vida e no mundo durante todo este período.

Não tenho a menor idéia de como será minha vida no dia 29 de fevereiro de 2012, do mesmo modo que há quatro anos, se eu vestisse minha carapuça de Pai Dinahgaki e tivesse tentado profetizar meu momento atual, provavelmente não acertaria uma previsão sequer. Tudo parece mudar de modo cada vez mais vertiginoso. É como Lenine descreveu de maneira mais lírica: “O mundo vai girando cada vez mais veloz/ A gente espera do mundo e o mundo espera de nós/ Um pouco mais de paciência”.

A vida não pára, por mais que fosse desejável que houvesse uma tecla pause a que pudéssmos recorrer em certas ocasiões. Quanto a mim, agora que já consegui finalizar minhas pendências profissionais, reservarei o restante do dia extra deste ano bissexto para ir na valsa. Afinal de contas, a vida é rascunho definitivo. ;)

Poesia numa hora dessas?

Por Alexandre Inagakiquinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Quando comecei a navegar pela internet, em meados de 1997, a primeira coisa que fiz foi tentar encontrar pessoas que compartilhassem dos mesmos interesses que possuo. Inscrevi-me, por exemplo, em fóruns e listas de discussão que falavam de Arquivo X, cinema brasileiro e quadrinhos em geral. Na época, eu ainda não havia abandonado o curso de Letras da USP e nutria em silêncio o sonho de um dia me tornar um escritor reconhecido, daqueles que lançavam anualmente best-sellers e freqüentavam a lista dos mais vendidos da Veja quando ela ainda merecia respeito.

Citando as palavras de Luis Fernando Veríssimo: poesia numa hora dessas?!Data desses tempos a época em que participei de uma lista de discussões intitulada “Escritas”, reunindo poetas inéditos que trocavam entre si mensagens com críticas, observações e versos das mais variadas métricas, formas e gêneros, num ambiente no qual a internet era como sempre deveria ser: um ponto de encontro online no qual conhecimentos são generosamente compartilhados. Por meio de listas como a “Escritas”, li pela primeira vez autores como Orlando Tosetto Junior, Lau Siqueira, Fred Matos, Maria Frô, Daniel Francoy, José Félix, AL-Chaer, Tatiana “Sweethell” Leão, Sara Fazib e Alyuska Lins, que vocês talvez não conheçam porque infelizmente o mercado editorial brasileiro nem sempre contempla os melhores escritores, em especial aqueles que se dedicam a versos. Ainda mais em um país estranho como o nosso, no qual há mais “poetas” (com ênfase nas aspas) do que leitores de poesia, e são raras as pessoas que dominam a arte da metrificação, têm noção do ritmo compassado das redondilhas ou são capazes de distinguir sonetos ingleses de sonetos italianos.

Eu, que há tempos abandonei a ilusão de virar um grande autor, deixei arquivado um livro de poesias intitulado Aprendizado – Rascunhos Definitivos, que está devidamente guardado na adega da minha gaveta até que o vinho um dia revele sua condição de mero vinagre. De vez em quando sucumbo à tentação de publicar alguns versos só para constatar que poesia definitivamente não dá ibope, vide os escassos comentários a poemas meus como “Sete Faces”, “Língua” e “Futebol”. Menos mal que atualmente me dedico a atividades capazes de garantir o meu nome fora do SPC e do Serasa, destinando o ofício da poesia a escribas mais qualificados. Contudo, quando recebi e-mails de antigos colegas da lista “Escritas” relatando a criação do blog coletivo Poetas Lusófonos com o intuito de reunir novamente amigos virtuais que se conheceram há mais de uma década, não pude deixar de resgatar certas lembranças. Para não deixar este post sem um verso sequer, segue abaixo um poema que escrevi há mais de oito anos. Ocasionalmente sinto saudades daqueles tempos em quis me tornar um escritor.

* * * * *

O Código Secreto das Estrelas

Leio nas entrelinhas do teu sorriso

rumores, canções que falam em pássaros.

Teus passos soletram pelas calçadas

sussurros de sombras por entre pétalas secas.

Falo de sonhos como quem tange nuvens,

galáxias, sintaxes de sons de estradas,

enquanto o tempo risca no vidro da memória

confusas lembranças que sibilam ferozes.

Hoje sei que tudo passa, embora ainda durma

com olhos de vigília e perfumes apócrifos.

Recordo com gosto agridoce de espelhos

na boca tua pele, teu sexo, teus olhos.

O tempo é turvo. O tempo é turvo.

Mastiga utopias, cospe sementes de névoa,

esparge fagulhas de luz no passado

- brinquedo imberbe nas mãos do acaso.

Mas não quero mais ser racional.

Deitado dentro de mim, hoje evoco

o momento único em que te encontrei,

e já começava a te perder.

* * * * *

P.S. 1: Peguei emprestados o título e a ilustração deste post de um livro de Luis Fernando Veríssimo.

P.S. 2: Eis a minha lista de dez poemas que recomendo a qualquer um que se interesse por versos realmente bons: “Tabacaria” (Fernando Pessoa), “em algum lugar onde nunca estive” (e. e. cummings), “A Casada Infiel” (Federico Garcia Lorca), “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” (T. S. Eliot), “Áporo” (Carlos Drummond de Andrade), “A Sierguéi Iessiênin” (Vladimir Maiakóvski), “O Tygre” (William Blake), “Balada (em memória de um poeta suicida)” (Mário Faustino), “Janelas Altas” (Philip Larkin) e “Uma Faca Só Lâmina” (João Cabral de Melo Neto).

Como curar um coração partido através da música?

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Acabei de assistir, pela enésima vez, a uma reprise de Um Lugar Chamado Notting Hill que encontrei por acaso na TV. Como bem escreveu Rafael Galvão em um texto impecável, é o típico filme que pessoas têm vergonha de admitir publicamente que apreciam. Afinal de contas, somos uma geração de cínicos cênicos, e Notting Hill é uma comédia romântica que não tem o menor pudor em assumir um sentimentalismo atávico, quase fora de moda. Porém, confesso que adoro a cena em que Anna Scott, a personagem de Julia Roberts declara-se para o livreiro interpretado por Hugh Grant, dizendo: “Sou apenas uma garota, parada na frente de um rapaz, pedindo a ele que a ame”. Para mim, é um dos mais belos diálogos que já vi em uma tela de cinema.

Mas tergiverso, tergiverso. Na verdade, escrevo porque graças a essa reprise de Notting Hill lembrei daquela que talvez seja a mais apropriada trilha sonora para pessoas que estão no fundo do fundo do fundo da fossa, imersas no inferno que é tentar superar o fim de um relacionamento, torturadas porque não têm a menor idéia de como fazer para esquecer um amor que acabou. A música é “How Can You Mend a Broken Heart?”, composta pelos Bee Gees. No filme, é aproveitada a maravilhosa regravação de Al Green, cuja voz realça a dor de seus angustiados versos: “How can you mend a broken heart?/ How can you stop the rain from falling down?/ How can you stop the sun from shining?/ What makes the world go round?”. Neste post, ouçam-na na matadora versão ao vivo no programa de Jools Holland. Continue Lendo

“Sangue Negro” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”

Por Alexandre Inagakidomingo, 24 de fevereiro de 2008

Foi ótimo constatar que os dois filmes com mais indicações ao Oscar deste ano são obras densas, sem concessões às platéias. Não à toa, tanto ao fim das sessões de Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, quanto de Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Joel e Ethan Coen, pude ouvir gente reclamando dos filmes. Não há terra para homens velhos, nem finais felizes para espectadores mimados.

* * * * *

I drink your milkshake!As cenas iniciais de There Will Be Blood mostram Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) cavoucando poços no meio do deserto norte-americano em busca de petróleo. Para saber se há indícios do óleo negro, Plainview cospe nas pedras do poço a fim de tentar ver sinais de minerais. Da saliva ao sangue dos operários que morrem nos poços de petróleo, paulatinamente imergimos na saga de um misantropo que enriquecerá na mesma medida em que terá seu espírito embrutecido. Tratado ambicioso sobre ganância, Sangue Negro justaposta interesses financeiros e religiosos na figura de dois personagens com sobrenomes simbólicos: Daniel Plainview e o pastor Eli Sunday (Paul Dano), homens que dedicam suas vidas a missões completamente alheias ao restante da humanidade.
O filme de Paul Thomas Anderson é repleto de metáforas. Desde o óleo que brota do fundo da terra e rasga em chamas os céus, até a cena final que se passa na pista de um jogo de boliche, nada é gratuito na história centrada em um prospector de petróleo que também é capaz de desvelar o que há de mais negro na alma dos homens que abomina. Vislumbramos, ao longo do filme, espasmos de humanidade na figura de Plainview. Porém, são réstias de luz que desaparecem à medida que seus laços familiares são explicitados como farsas. Sem religiosidade nem família que o resgatem do processo de desumanização, não à toa o personagem assombrosamente personificado por Day-Lewis surge na seqüência final comendo um pedaço de carne com as próprias mãos. No derradeiro e mais brutal de todos os mesmerizantes duelos entre o capitalista Daniel Plainview e o fanático Eli Sunday ao longo da trama, o desfecho não poderia terminar de outra maneira que não fosse com sangue, com strike, com a frase sintomática do processo de esgotamento metafísico do personagem central: “I’m finished”.

* * * * *

À primeira vista, Onde os Fracos Não Têm Vez aparenta ser um western pós-moderno centrado na história de Llewelyn Moss (Josh Brolin), um sujeito comum que acidentalmente descobre uma mala repleta de dólares para casa, e que penará com os efeitos colaterais desse achado, personificados na figura de um assassino apocalíptico, Anton Chigurh (Javier Bardem). Porém, creio que a chave para a compreensão deste filme dos irmãos Coen está no personagem de Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), o xerife à beira da aposentadoria, velho homem do título original mal traduzido para o português (No Country For Old Men) que sabe que não é possível parar o que está por vir.
Cartaz de Onde os Fracos Não Têm Vez.A sanha homicida de Anton Chigurh é comparada, em certa passagem, a uma peste bubônica. Não é uma imagem gratuita: o assassino vivido por Bardem é a Morte em pessoa, quase como a epidemia da Idade Média que foi interpretada como um castigo divino. Simbolicamente, uma das armas que utiliza é uma pistola de ar comprimido que costumeiramente é usada para o abate de gado. Além disso, Anton Chigurh age por vezes como um arauto do Destino, dando a suas vítimas a opção de, por meio do “cara ou coroa”, escaparem da morte por meio de um lance do acaso. Ledo engano: todos nós fazemos escolhas, seja no momento de assassinar um ser humano ou de dar água de beber a um moribundo, e o momento em que Chigurh encontra Carla Jean (Kelly Macdonald), esposa de Llewelyn Moss, mostra exemplarmente isso.
Por mais que o destino pareça ser inexorável, somos produtos de nossas escolhas. O personagem de Tommy Lee Jones sabe disso, e não esconde sua perplexidade diante das manchetes de jornais que descrevem crimes tão absurdos que chegam a provocar sorrisos com gosto de culpa. Constata o velho xerife: “Eu sempre achei que, quando ficasse velho, Deus entraria em minha vida de alguma forma. Mas ele não o fez”. E a seqüência do criticado (porém estupendo) final, quando Lee Jones relata para a mulher um sonho que teve, é o desfecho correto para um filme no qual ficamos sem saber as motivações do assassino, o que realmente aconteceu na cena da morte dos traficantes mexicanos, o que faziam o criminoso do escritório e o personagem de Woody Harrelson. Em um mundo que soa mais inverossímil do que qualquer ficção, de que adiantariam respostas simplificadoras e insatisfatórias? Nada mais adequado, pois, do que encerrar o filme com a descrição de um sonho que fala de um passado perdido e de um mundo no qual o filho é mais velho do que o pai. Apenas na linguagem simbolicamente onírica é que poderemos buscar possíveis explicações para o atual e aterrador estado de coisas descrito por esta obra-prima dos irmãos Coen.

* * * * *

P.S. 1: Em um bolão dos resultados do Oscar desta noite, palpito que Onde os Fracos Não Têm Vez levará as estatuetas de direção, roteiro adaptado e fotografia. Levado por uma certa intuição, cravarei uma zebra, chutando que Sangue Negro, que injustamente não foi indicado para o Oscar de Trilha Sonora (composta por Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead) será considerado o melhor filme. Quero muito que Marion Cotillard, por sua atuação irretocável em Piaf – Um Hino ao Amor, repita o caso de Sophia Loren, primeira atriz premiada com o Oscar por uma atuação em um filme não-falado em inglês, o italiano Duas Mulheres, de 1962, embora reconheça que a favorita é Julie Christie. Barbadas mesmo são três: Daniel Day-Lewis, que tomará todo o milkshake na categoria de melhor ator, Javier Bardem, que criou o vilão mais perturbador do cinema desde Hannibal, o Canibal, e será merecidamente premiado como melhor ator coadjuvante, e Ratatouille, a encantadora produção da Disney/Pixar que levará o Oscar de melhor longa animado. Arrisco ainda dizer que Tilda Swinton garantirá a única estatueta para Conduta de Risco na categoria de atriz coadjuvante (que costuma proporcionar as maiores surpresas da cerimônia), e que a blogueira Diablo Cody levará o careca dourado para casa pelos diálogos espertinhos de Juno. Mas eu sei que meus palpites não me fariam ganhar nenhum bolão…
P.S. 2: Eis a constatação visual de que Anton Chigurh e o Beiçola, da Grande Família, são fregueses do mesmo barbeiro.
Anton Chigurh, de No Country For Old Men.O Beiçola da Grande Família.
P.S. 3: Independentemente de premiações, para mim os melhores filmes de 2007 foram O Hospedeiro, de Bong Joon-Ho, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. Mais discussões sobre a sétima arte? Visitem a Liga dos Blogues Cinematográficos e o meu site predileto sobre a premiação da Academia de Hollywood, o espanhol Tío Oscar.
P.S. 4: Observações após a cerimônia de entrega do Oscar: errei no palpite de melhor filme, mas fiquei satisfeito: Onde os Fracos Não Têm Vez era o meu favorito. Porém, achei injusto Roger Deakins, que foi duplamente indicado na categoria de melhor fotografia por dois excepcionais trabalhos em Onde os Fracos Não Têm Vez e O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, ter perdido a estatueta para Robert Elswit, de Sangue Negro, por mais que a fotografia do filme de PTA seja também muito boa. De resto, a merecidíssima vitória de Marion Cotillard já valeu a noite, e acabei acertando a previsão de uma das categorias mais imprevisíveis, melhor atriz coadjuvante. Até que fui razoavelmente bem no bolão do Oscar. :D

Primeiro aniversário do InterNey Blogs

Por Alexandre Inagakisexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Primeiro aniversário de InterNey Blogs!

Há um ano entrou no ar o primeiro portal profissional de blogs do Brasil. Desde então, muito se escreveu sobre nossa iniciativa, outros projetos reunindo blogueiros como Nossa Via, Blogamos e HiTech Live surgiram e novos blogs têm sido agregados ao nosso portal. Que muito mais iniciativas surjam e que a blogosfera brasileira prossiga se desenvolvendo, seja dando voz a nomes como o policial militar Alexandre de Sousa, o taxista Mauro Castro, a dona de casa Odele Souza ou a equipe de jornalistas investigativos do PE Body Count, seja pela organização de postagens coletivas que abordam assuntos caros à nossa sociedade, como fazem os Amigos da Blogosfera. Porque não é através de polêmicas, e sim por meio de propostas sérias que os blogs brasileiros evidenciam seu cristalino processo de crescimento, amadurecimento e paulatina profissionalização.

Creio que posso falar em nome de todos do InterNey Blogs ao afirmar: a gente está apenas começando. ;)

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P.S. 1: Marmota descreve com precisão mãedinahzística como será a festa de 10 anos do InterNey Blogs. Gostei em especial do trecho do helicóptero. B)

P.S. 2: Obrigado a todos que participaram da promoção Cloverfield! Quem ganhou o par de ingressos para assistir ao filme foi o leitor Demas, que parafraseou o lema do Cinema Novo cunhado por Glauber Rocha ao sugerir o título “Cloverfield – Uma Câmera na Mão e um Monstro na Cabeça”. E a leitora Samara Horta, por ter dado a bem sacada sugestão “Sayonara New York”, fez por merecer um prêmio extra: um kit Pensar Enlouquece. Peço a ambos para que entrem em contato comigo enviando suas coordenadas geográficas para inagaki2@gmail.com.

Do tempo em que Michael Jackson era negro e fazia boas músicas

Por Alexandre Inagakiquarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Uma das imagens mais marcantes da minha infância é exibida aos 3 minutos e 41 segundos do vídeo abaixo: o momento em que Michael Jackson apresentou pela primeira vez ao mundo o passo de dança que marcou toda uma geração, o moonwalk, enquanto apresentava seu sucesso “Billie Jean”. Uma música cujo nome, se dependesse da vontade de Quincy Jones, produtor de Michael, teria sido “Not My Lover”.
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Esta apresentação histórica foi gravada no dia 25 de março de 1983, fez parte de um especial para a TV intitulado “Motown 25: Yesterday, Today, Forever” e foi exibida várias vezes no Fantástico, programa no qual ouvi pela primeira vez um gênio da música pop que compôs e gravou em 1982 sua obra-prima: Thriller. Segundo a gravadora de Michael, a Sony/BMG, o álbum vendeu até hoje mais de 105 milhões de cópias. Só aqui no Brasil foram mais de 2 milhões de discos, dentre os quais colaborei com a aquisição daquela que foi a primeira fita K-7 que tive na vida, na época em que ainda se vendiam cassetes.
Capa da edição especial de 25 anos de Thriller.
Hoje é o dia em que a edição comemorativa dos 25 anos do lançamento de Thriller chegou às lojas brasileiras. Mais uma constatação de que, pfuf, inequivocadamente envelheço. :| E pensar que, há um quarto de século, Michael Jackson ainda não tinha desbotadas nem a sua pele, nem a sua alma musical. Ele foi o primeiro artista negro a ter seus clipes exibidos em alta rotação na MTV americana. Graças à sua obra-prima, vendeu 27 milhões de cópias só nos Estados Unidos, recebeu disco de platina ou diamante em 16 países, levou oito prêmios Grammy para casa (embora um dos Grammys que ganhou em 1984 tenha sido por sua participação no audiobook do filme E.T., de Steven Spielberg) e emplacou sete de suas nove faixas na parada da Billboard. Além de tudo isso, Michael revolucionou a arte dos vídeos musicais com “Thriller”, praticamente um curta-metragem de 14 minutos de duração dirigido pelo cineasta John Landis, orçado em cerca de 800 mil dólares, e cuja coreografia de zumbis influencia a cultura pop até hoje, inspirando performances em filmes, festas de casamento e penitenciárias filipinas.
Capa miguxa do relançamento de Thriller feito em 2001.A edição do 25° aniversário de Thriller não foi o primeiro relançamento da obra-prima do irmão da Janet. Em 2001, o álbum já havia ganhado uma reedição com bonus tracks como “Carousel” e “Someone in the Dark”, faixas não aproveitadas originalmente, além de ter recebido uma nova capa na qual Michael aparece em uma pose esquisitona ao lado de um dos seus bichinhos de estimação. Já o Thriller 25 Anos apresenta como grandes novidades remixagens de faixas como “Wanna Be Startin’ Somethin’” e “Beat It” produzidas por nomes como Kanye West, Akon e Will.i.am, além da música inédita “For All Time”.
Será que Michael Jackson conseguirá aproveitar a ocasião para reerguer uma carreira abalada por acusações de pedofilia e comportamentos pra lá de excêntricos? É o que veremos quando Mr. Jacko lançar seu novo álbum de inéditas, no qual está trabalhando desde março de 2006, e que eu espero que não tarde tanto quanto Chinese Democracy, disco que os Guns N’Roses (ou melhor dizendo, Axl Rose e alguns roqueiros desgarrados) estão gravando desde, acreditem se puder, 1994. Quem viver verá. Ou não.

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P.S.: Por ocasião da morte de Michael Jackson, escrevi um texto novo no portal MTV: Michael Jackson, a síndrome de Peter Pan e o museu de grandes novidades.

Cloverfield, o terror em primeira pessoa

Por Alexandre Inagakiterça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Nesta que é a semana que antecede a cerimônia do Oscar, estou fazendo uma maratona cinéfila a fim de tentar assistir a todos os principais indicados. Porém, faço um parênteses para escrever sobre um possível indicado aos prêmios de 2009: Cloverfield – Monstro. Um filme que é a representação cinematográfica das mesmas sensações que tomam conta de um incauto andando em um carrinho de montanha-russa: olhares tremidos, vertigens constantes e um certo sentimento de satisfação masoquista ao final do trajeto.

O filme mostra o que aconteceria se a cidade de Nova Iorque fosse atacada por um monstro digno daqueles que destroçavam as construções de Sim City. Porém, esqueça ameaças como King Kong, Godzilla ou George W. Bush: trata-se de algo muito mais arrasador. A grande sacada deste blockbuster dirigido por Matt Reeves e produzido por J.J. “Lost” Abrams está no modo como a trama é exibida: através da câmera de vídeo na mão de um dos personagens que corre destrambelhadamente pelos destroços da “Big Apple”.

O escalpo da Estátua da Liberdade em Cloverfield.O roteiro, acertadamente, não busca dar explicações pseudo-científicas para o surgimento do monstrengo. Ele simplesmente está lá, e você tem que se virar pra conseguir escapar vivo dessa. Outro ponto eficiente é a maneira como são apresentados ao espectador os personagens do filme, um grupo de amigos reunidos para a festa de despedida de Rob, que viajaria para assumir a vice-presidência de uma empresa no Japão, terra natal do Godzilla. As imagens da festa são gravadas em cima de uma fita com registros antigos de Rob ao lado de Beth, seu grande caso de amor mal resolvido, e por meio desse artifício narrativo o espectador passa a saber de informações que serão utilizadas adiante com o devido impacto dramático. A partir do momento em que o monstro começa a tocar o terror em Nova Iorque (na companhia de “amiguinhos” menores que dão o ar de sua desgraça na seqüência do metrô), a câmera passa a registrar a angústia esbaforida dos personagens em fuga, enquanto imagens entrecortadas do bicho são vistas apenas de relance em um e outro enquadramento tremido. E aí está outro mérito da direção e roteiro de Cloverfield: entender que sugerir é um ato muito mais instigante do que escancarar.

Uma das cenas mais significativas de todo o filme é a seqüência na qual a cabeça da Estátua da Liberdade é arremessada pelo monstro, vai parar no meio de uma rua e é logo cercada por diversos transeuntes que começam a filmá-la e fotografá-la com seus celulares e câmeras digitais: Cloverfield é o típico produto de uma era de produtores de conteúdo que não estão mais satisfeitos em ver um acontecimento diante de seus olhos: eles desejam registrar seus pontos de vista fazendo fotos, vídeos, posts.

Não perca tempo questionando a inverossimilhança de uma câmera digital cuja bateria é mais resistente que coelhinho da Duracell ou o estômago do Jack Bauer que em 24 horas nunca para pra tomar um lanche sequer. Cloverfield é um filme angustiantemente divertido, que reflete o zeitgeist desta época na qual registramos nossas lembranças através do suporte de smartphones e câmeras digitais. Produto típico desta era de convergência de mídias, não à toa foi precedido por uma campanha viral na qual cada imagem de seus trailers foi analisada por espectadores que congelaram frames e criaram blogs expondo suas teorias a respeito do filme.

Encontrei na Web vídeos que analisam o áudio quase ininteligível que surge após o final dos créditos e um objeto que cai no mar em determinada cena do filme. Mas só recomendo que você clique nesses links após ter assistido a Cloverfield. Que, ao lado da estupenda produção coreana O Hospedeiro, de Bong Joon-ho (IMHO, o melhor filme de 2007), faz com que eu seja obrigado a dizer que o gênero “filme-de-monstro” nunca esteve tão revigorado e criativo.

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P.S. 1: Tenho um par de ingressos do filme dando sopa por aqui. Se você quiser assisti-lo de graça com direito a acompanhante (afinal de contas, sessão de cinema fica mais bacana quando você tem alguém com quem compartilhar os sustos e impressões), deixe um comentário neste post dando um novo título em português para Cloverfield – Monstro. Todos os comentários dando sugestões de nomes só serão liberados para publicação na meia-noite desta sexta-feira, dia 22, quando também divulgarei o nome do vencedor de acordo com a comissão julgadora deste blog (leia-se: eu). Em tempo: os ingressos que tenho aqui são válidos em qualquer cinema localizado no território brasileiro, de segunda a quinta, exceto no Cinemark do Shopping Iguatemi em Sampa City e nas salas do Grupo Estação.

P.S. 2: Locutório, Roda Presa e Saloma do Blog, sejam bem-vindos ao InterNey Blogs!

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Pense Nisso! Alexandre Inagaki

Alexandre Inagaki é jornalista e consultor de comunicação em mídias digitais. É japaraguaio, cínico cênico. torcedor do Guarani Futebol Clube e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos. Já plantou semente de feijão em algodão, criou um tamagotchi (que acabou morrendo de fome) e mantém este blog. Luta para ser considerado mais do que um rosto bonitinho e não leva a sério pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa.

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